domingo, 29 de dezembro de 2013

A flor de U'zltrilix

Conforme dito lá no "Tá Duvidando?", o blog está um pouco parado neste final de ano, mas voltarei à postar normalmente na segunda semana de 2014. 

Levando em conta o resultado da enquete que eu fiz, hoje vou fazer o primeiro post de ficção científica. Espero que gostem e peço que deixem seus comentários dizendo o que acham dos contos deste gênero.

    Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?

    Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Balsa - Stephen King (Parte 2)

Então, saiu da água e o ar frio mordiscou-lhe a pele, mordiscou-o ainda com mais vigor do que a água, quando nela mergulhara.

— Ohhhhhh, merda! — gritou, rindo e tiritando em sua sunga.

— Pancho, tu és um moleirão! — exclamou Deke, satisfeito. Ajudou-o a subir para  a balsa. — Está frio demais pra você? Tudo bem?

— Tudo bem comigo! Tudo bem comigo!

Randy começou a pular como Deke havia feito, cruzando os braços sobre o peito e estômago, em um X. Os dois se viraram para as garotas. Rachel ultrapassara LaVerne, esta exibindo um estilo cachorrinho, executado por um cão de maus instintos.

— As senhoritas estão bem? — gritou Deke.

— Vá para o inferno, Senhor Machão! — gritou LaVerne.

Deke não a importunou mais. Randy olhou para o lado e viu que a curiosa mancha escura e circular estava agora mais próxima — agora a dez metros e ainda aproximando-se. Flutuava na água, redonda e circular, como o topo de um grande latão de aço, porém a maneira frouxa como se movia deixava perceber que não era a superfície de um objeto sólido. O medo, errante, mas poderoso, tomou conta dele.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Amigo de Seis Semanas

Um dos piores sons deste mundo é ouvir um bocado de terra cair sobre a tampa do caixão onde está seu amigo. Após presenciarem seu colega, que em pouco tempo já tinha uma relação fraternal, descansar eternamente embaixo da terra ele partiu de mãos dadas com a mulher chorosa mais a criança. Seguiram para fora do cemitério sem dizerem uma única palavra, em respeito ao morto. Sejamos racionais: Quem nunca acreditou ou iludiu-se com alguém? Seria melhor recapitular este caso para que possamos compreender o que vale em uma amizade.


Seis semanas antes Virgílio, sem aviso prévio, sofreu um mal súbito quando seguia para o trabalho. Ele sentiu uma forte ardência no braço direito, acompanhada pela falta de fôlego, perdeu os sentidos e desabou no piso da lotada estação de metrô. Sua parada cardiorrespiratória virou atração para todos os passageiros, um bom assunto que muitos iriam expor no trabalho. Assim o corpo de Virgílio perdia suas energias vitais no meio daquelas centenas de gente aguardando o próximo trem. A alma do recém-defunto desprendera-se da carne desamparada e doente, ficando ao chão somente um corpo abatido, com coração infartado e ventrículo fibrilando.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Balsa - Stephen King (Parte 1)

São uns sessenta e cinco quilômetros, da Universidade Horlicks, em Pittsburgh, até o Lago Cascade, e embora em outubro escureça cedo nessa parte do mundo, e apesar deles só partirem às seis horas, ainda havia uma ligeira claridade no céu quando chegaram lá. Tinham ido no Camaro de Deke. Deke não perdia tempo, se estava sóbrio. Após duas cervejas, fazia o Camaro caminhar e falar. Ele mal havia parado o carro junto à cerca de estacas, entre o pátio de estacionamento e a praia, quando saltou para o chão e tirou a camisa. Seus olhos esquadrinhavam a água, à procura da balsa. Randy saiu do banco ao lado do motorista, algo relutante. A idéia tinha sido sua, claro, porém nunca esperara que Deke a levasse a sério. As garotas se remexiam no banco traseiro, preparando-se para descer.

Os olhos de Deke perscrutaram as águas incessantemente, de um lado para outro (olhos de atirador de tocaia, pensou Randy, desconfortavelmente), e então se fixaram em um ponto.

— Está lá! — gritou, dando um tapa no capô do Camaro. — Bem como você disse, Randy! Que barato! O último a chegar é um ovo podre!


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Você já quis matar alguém?

Quem nunca tirou uma vida não pode entender as razões de quem já o fez. Por isso, não tente aplicar a mim as suas noções de justiça, necessidade ou prazer. Vou contar a minha história não para que você me julgue, mas para que a experimente, se for capaz.

Meu pai sempre teve armas em casa. Era colecionador. Eu nunca pusera um dedo em nenhuma, pois sabia que o velho me arrancaria o couro, talvez literalmente. Quando íamos para o sítio da família no interior, ele sempre levava pelo menos uma espingarda de chumbinho. Eu o observava acertar alvos parados, depois móveis, e aquilo podia proporcionar horas de agonia para minha mãe, que ficava mais pálida a cada tiro ouvido a distância. Não é um esporte para pessoas frágeis.

Nosso caseiro era um homem de uns 50 anos, com cara de mais de 60, sem esposa, filhos ou dinheiro, que meu pai empregara por piedade. Mas em pouco tempo os vizinhos do interior começaram a nos telefonar em São Paulo queixando-se de que o homem aprontava nos botecos da cidadezinha, completamente bêbado, arranjando encrenca com os peões. Quando contratamos o pobre viúvo, não sabíamos que era um alcoólatra.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Prerrogativas

Ela jogou os cabelos para trás uma, duas, três vezes, no ritmo dos próprios gemidos. Atrás, o homem bufava, ia e vinha, eufórico. Ela fazia o que ele queria. Fazia tudo o que eles queriam. De frente, de lado, de costas, sobre o chão de folhas secas, acuada contra as árvores ou imersa no lamaçal. Em silêncio ou aos berros. Era sua prerrogativa.

Abordava-os no meio da estrada que atravessava o bosque. Nua, a pele de cera reluzindo ao luar, os cabelos de fogo fazendo espirais sobre seus seios, derramando-se em cascata nos quadris, lambendo-lhe mesmo os calcanhares. Uma visão. Uma Vênus. Braços estendidos. Venha. Faça de mim o que quiser.

O Guardião


Sempre tivera uma impressão errada do serviço de guardião noturno. Principalmente por conta da imagem impregnada no consciente coletivo, formada por anos e anos de bombardeio de filmes americanos. A visão era clara: um uniforme parecido com o da policia, um cassetete e uma lanterna para iluminar um labirinto de corredores.

Realidade e expectativa são separadas por um abismo. Nada de uniforme. O cassetete é um pedaço de madeira arranjado por ele mesmo e que lhe enche a mão de farpas. Não tinha lanterna, pois todas as luzes posam acesas. Não precisa percorrer todos os corredores, pois do pátio central tem uma visão de quase todos os cantos da escola. Onde a visão não alcança, ele julga ser sem importância. Na verdade lhe falta um pouco de coragem para chegar mais perto e verificar todos os cantos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Encantadora


Naquela noite, quando ele pediu abrigo na casa de meu pai, eu olhei em seus olhos e soube que deveria ser sua até meu último alento. Por isso, não hesitei em levá-lo pela mão ao velho celeiro, onde nos entrelaçamos como serpentes sobre a palha e uivamos como lobos até o amanhecer.

Eu já não era uma donzela então, mas meu conhecimento do corpo do homem deu-lhe prazer repetidas vezes e ele nunca me perguntou quem haviam sido os outros. Isso não importava. Foi assim ao longo de todo um ano. Ele vinha da fazenda onde trabalhava para o celeiro. Lá, eu o esperava como a terra espera a chuva, e nós ríamos, nus, comendo as amoras que eu trazia do bosque.

No inverno seguinte, meu velho pai faleceu da tosse sanguinolenta que eu pudera apenas tratar com meus elixires e vapores, mas nunca curar. Fiquei sozinha. Então, disse ao meu amante que ele deveria ser o novo homem da casa.Sei que me aceitaria prontamente como sua mulher, mas ele morava ainda com a mãe, alma triste que não queria ver seu menino tornar-se um varão. Ela me chamou de messalina e encantadora de homens e disse que ele seria infeliz ao meu lado, pois eu me deitaria em outras camas e ele teria de alimentar os filhos de outros homens. Ela não abençoou nossa união.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Asfixia

Começou aos poucos, quase sem ser notado. As crianças foram as primeiras a sentir os efeitos, parando no meio das brincadeiras de pega-pega, esquecendo o futebol pela metade, preferindo montar quebra-cabeças à correria. Depois o boato tomou as conversas em bares, as janelas leva-e-traz das faladeiras, os programas de entrevistas, até virar notícia oficial, grave em seu chamado de cadeia nacional, transmitida a cada povo do planeta por seu próprio governante.

Não se sabia a origem do fenômeno. Nos botecos, diziam que a Terra atravessava uma região do espaço ocupada por elementos de anti-matéria que sugavam a atmosfera. As tevês culpavam os raios solares, a camada de ozônio, o El Niño. Saltando de janela em janela, entre fofocas e ladainhas, um versículo do Apocalipse ecoava: “e o sétimo anjo derramou sua taça pelos ares”. Não havia consenso, mas o fato é que a Terra, como um balão cheio de minúsculos furos, vazava gases para o cosmos.

O mundo estava perdendo ar.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Vingança

A prisão era como uma manhã fria, monótona e perigosa eternamente. As favelas em que cresci é o melhor exemplo da agonia diária, onde cada dia parecia ser o último quando um intruso resolvesse invadir sua casa e estourar seus miolos. Uma bala perdida. Fria e certeira. Mortal.

 Num mundo injusto onde a justiça cedo ou tarde não prevalece, o vigor da vida acaba desaparecendo, dando espaço para a sede de vingança.

Fiquei preso durante seis anos, e fui libertado por bom comportamento antes de minha pena de treze. 
Passo a mão em minha barba mal feita na dúvida do que faria primeiro, e sinto a cicatriz de minha garganta saltada de ansiedade, onde uma navalha quase tirou minha vida numa briga entre detentos e policiais, no qual acabei sendo refém de meus próprios companheiros, se assim posso chamá-los.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Porão


Anos atrás minha família decidiu passar as férias na serra gaúcha e para isto alugou uma pequena e antiga casa em Gramado para ficarmos durante duas semanas.

No andar térreo a casa possuía uma sala, banheiro e a cozinha. Os quartos eram no andar superior e havia ainda um porão que era usado apenas como depósito de coisas velhas contendo um sofá, armários e outras coisas sem muita importância.

O primeiro dia nesta casa transcorreu de forma tranquila: passeamos pela cidade, voltamos a tardezinha, fizemos um delicioso fondue, brincamos e dormimos todos esgotados pelas atividades do dia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Homem de Preto

Seu nome era Samuel. Ele estava em apuros. Naquela noite escura, alguém o perseguia e desejava matá-lo. Sua vida corria risco, o tempo corria contra ele. Qualquer movimento em falso e seu destino seria irreversível. O desespero tomava conta de seus sentidos.

E agora, o que fazer? Para onde ir? Ele, simplesmente, não sabia nem ao menos se estaria vivo no minuto seguinte. Tudo o que queria era que seu coração se acalmasse.

O tempo estava passando e o cansaço começou a dominá-lo. Suas pernas já não reagiam mais da mesma forma. E, pouco a pouco, ele foi diminuindo o ritmo. Teria chegado seu fim? A morte o levaria naquela noite? Não, Samuel não queria pensar no pior. Ele ainda poderia fugir. Queria que o pesadelo acabasse. Já não tinha mais forças para correr.

sábado, 23 de novembro de 2013

O Caso de Gabriel Orwell

"Estou escrevendo estes fatos para manter a sanidade que ainda resta em mim. Cada dia sinto que ela está escapando entre meus dedos, como se eu tentasse segurar água em minhas mãos.

Escrever sobre a minha situação é muito mais fácil do que falá-la, porque leva mais tempo até as pessoas acharem que eu sou maluco. Não, eu não sou louco. De primeira, eu não soube como lidar com isso. De fato, eu ainda me lembro a primeira vez que eu vi, ou melhor, quando ele me viu.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Invocação de Horthembrak


Quem é Horthembrak?

Uma espécie de espírito ou entidade muito comum em lendas urbanas. Não se sabe de onde surgiu a crença, só sabemos que ela ficou muito famosa na região norte do Brasil.

Horthembrak não tem uma definição própria, alguns dizem que ele é um espírito outros que é um demônio, mas a maioria delas assume trata-se de um ser do mundo dos elementares, uma espécie de essência natural inteligente. Muitos acreditem que ele não possua forma própria e que só assume alguma característica física quando quer entrar em contato com humanos.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Apartamento 73

Era uma tarde normal de quinta-feira quando estávamos nos preparando para encerrar nosso expediente naquela repartição pública. Eu e mais duas funcionárias conversávamos, aguardando a saída da diretora que ainda estava na sua sala salvado arquivos e desligando o computador. Com um assunto bem corriqueiro, eu e a outras duas servidoras conversávamos sobre a crescente violência na cidade:

– Vale a pena pagar mais para morar num prédio, justamente pela presença de um porteiro e das câmeras.


– É apenas uma sensação de conforto, porque os bandidos também são atraídos pela facilidade e acumulo de bens nos condomínios.


– Isso é verdade, porém eu acho que residir em casa e bem pior.


– Eu sempre residi em casa e só entraram no meu quintal uma vez, para roubar minha bicicleta. Também vão roubar mais o quê na casa de um favelado como eu?


– Foi por isso que mandei fazer um muro bem alto, além do cachorro que avisa quando alguém está próximo. – neste instante surge a nossa chefe já tirando da bolsa a chave do seu carro, quando eu perguntei – A senhora mora em apartamento, não é Dona Josefa? Já teve problemas com a segurança?


A elegante diretora arregalou os olhos verdes esculpidos em um rosto orgulhoso, meditou por dois segundos e se posicionando à nossa frente dando início a este testemunho:



terça-feira, 19 de novembro de 2013

O Artefato

Noites com nevoeiro são perturbadoras em qualquer lugar. Mas no bairro de Marsilac elas têm sempre uma pitada a mais de horripilante. O lugarejo fica numa área de preservação ambiental no extremo sul da capital paulista, já vizinha do litoral. A mata atlântica permanece intocada. Além de tudo, está localizada entre duas represas, a Guarapiranga e a Billings, o que contribui para que a região seja mais nebulosa ainda, devido aos vapores constantes.

Mas de forma especial, nesse dia em que Alexandre voltava da faculdade, quase não se conseguia ver um braço a frente dos olhos. O professor tinha segurado a turma um pouco mais, e sendo a instituição localizada mais ao centro da cidade, já passava muito da meia-noite quando chegou a Marsilac.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Fantasma - Stephen King

- Vim porque desejo contar-lhe minha história - disse o homem deitado no sofá do Dr. Harper.

O homem era Lester Billings, de Waterbury, Connecticut. De acordo com os dados anotados pela Enfermeira Vickers, tinha vinte e oito anos de idade, era empregado de uma firma industrial em Nova York, divorciado e pai de três filhos. Todos falecidos.

- Não posso procurar um padre porque não sou católico. Não posso procurar um advogado porque não tenho motivo algum para contratar um advogado. Tudo que fiz foi matar meus filhos. Um de cada vez. Matei-os todos.

O Dr. Harper ligou o gravador.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Ratoeira

A paixão de Uriel eram os seus chocolates. Metia-os na última gaveta, lá no fundo, para que ninguém soubesse de seu tesouro. E quando os comia, fazia-o sozinho e em silêncio, de portas trancadas e olhos buliçosamente assustados. Sentia um medo irracional de ser flagrado com suas guloseimas.

Um acesso de raiva, uma raiva mortal, que Uriel conteve num lampejo de lucidez, foi o que sucedeu. Quase chegou a experimentar o arrependimento que sentiria, se tivesse sucumbido aos impulsos primitivos da ira. Mas Uriel controlou-se. Não praguejou. Não esmurrou a mesa. Não ameaçou os colegas. Substituiu toda expressão de ódio por uma fisionomia impassível, enquanto o cérebro trabalhava em ritmo frenético. Agora era descobrir quem furtara os seus chocolates.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Armadilha

Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:

— Conte, o que você fez?

No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Final)

Leia as partes anteriores clicando nos seguintes links:
Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4


— Partiremos dentro de meia hora — anunciou o alto-falante, exatamente como um aviso comum de estação.

O trem parou. O som das rodas nos trilhos, o deslocamento de ar da sua passagem, aos quais Kaufman já se havia acostumado, desapareceram de repente.Só ouvia o zumbido do alto-falante. Nada via na escuridão. Então, um som sibilante. As portas estavam se abrindo. Um cheiro invadiu o carro, tão cáustico que Kaufman levou a mão ao rosto para se defender dele. Ficou em silêncio, a mão sobre a boca durante o que lhe pareceu uma vida. Não ver o mal. Não ouvir o mal. Não falar o mal. Então, viu um lampejo luminoso fora da janela. Desenhou a silhueta do batente da porta e aumentava gradualmente. Logo a luz no carro era suficiente para que Kaufman visse o corpo encolhido do Açougueiro a seus pés e os lívidos pedaços de carne dependurados em volta dele.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A Pena do Corvo



Comprei a pena do corvo por um preço absurdo. O contrabandista garantiu que pertencera ao renomado poeta. Possuo muito dinheiro. Quando afirmo isso, creia que não se trata de pouco. Para ter certeza de que tenho em mãos o artefato verdadeiro, mergulho sua ponta em um pote de tinta nanquim. Em seguida, começo a escrever em uma folha de papel branco. Pelo o que se afirma em nosso seleto círculo, o famoso prosador utilizou a pena em seus momentos mais febris de imaginação e criatividade. Seria essa a explicação para textos tão fantásticos e idolatrados pela contemporaneidade? Em sua própria época, o escritor não obteve o verdadeiro e merecido sucesso.

Na era do computador parece uma prática tão sem sentido voltar-me para o uso da tinta e do papel que rio da minha necessidade de ter artefatos antigos. Porém, no caso da pena, sei que é diferente. Meus pares atribuem a ela um caráter mágico. Ainda sem rumo, sem saber como funciona exatamente, deixo a mente vazia para que o artefato guie minha mão. Inicio apenas com palavras soltas sem tentar explicar sua existência sobre o papel: Maeltzel, Maelstrom, Pfall, pêndulo, diabo, Metzengerstein, carta, mistério, Wilson, manuscrito, Berenice, gato, barril, casa. Cada palavra parece conter um universo, uma história para ser contada. Não demoro para identificar a origem desses vocábulos nos títulos dos contos de Poe.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 4)

Clique nos links para acessar as partes anteriores:

O instinto dirigiu sua ação. Kaufman afundou-se mais sob o banco, o corpo transformado numa bola minúscula, o rosto pálido virado para a parede. Depois cobriu a cabeça com as mãos e fechou os olhos com força, como um garoto com medo do bicho-papão. A porta deslizou, abrindo-se. Clique. Suash. Uma lufada de ar veio dos trilhos. Um cheiro diferente de todos que Kaufman já havia sentido, e mais frio. O ar em suas narinas era algo primitivo, hostil e indescritível. Kaufman estremeceu.

A porta se fechou. Clique.

O Açougueiro estava perto, Kaufman sabia. Devia estar em pé, a poucos centímetros dele. Estaria olhando para as costas de Kaufman? Inclinando-se, a faca na mão, para tirar Kaufman do esconderijo, como um caramujo arrancado da concha? Nada aconteceu. Não sentiu qualquer bafo no pescoço. Sua espinha não foi aberta de alto a baixo. Apenas o som de passos perto da cabeça de Kaufman, depois o mesmo som afastando-se.

O Diabo e o Pedreiro

Havia em Santiago de Compostela, em tempos imemoriais, uma viela na qual os antigos puseram o singular nome de “Travessa do Cego e do Caolho”. Tal minúsculo logradouro, não mais que uma passagem curtíssima entre duas ruas de mediana expressão, abrigava apenas duas casas pequenas, uma de cada lado, cujas janelas e portas se entreolhavam preguiçosamente. Embora estreita a viela – mal podiam passar pelo escaninho duas pessoas magras lado a lado –, muitíssimos transitavam por ela, apesar da perene escuridão que lhe tornava limosas as pedras desgastadas, porque era uma via que encurtava abençoadamente o caminho dos romeiros, já tão cansados, que rumavam à Catedral. E o excêntrico nome da minúscula rua atraía a curiosidade dos viajantes, que estavam sempre a indagar sobre a sua origem. Mas os de Compostela não gostavam de saciar o desejo dos transeuntes. Ficavam eles quase sempre sem resposta, visto como teriam de ouvir falar do Diabo, e isto não era apetecível a uma cidade sagrada, cujo solo servia de repouso eterno ao Apóstolo do Senhor.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte3)

Leia as partes anteriores clicando nos links abaixo:

Às onze horas, uma hora além do que havia prometido a si mesmo, Kaufman ainda não havia terminado. Mas a irritação e o tédio dificultavam o trabalho, e os números se embaralhavam na frente dos seus olhos. As onze e dez entregou os pontos e admitiu a derrota. Esfregou os olhos ardentes com as palmas das mãos até enxergar um verdadeiro calidoscópio sob as pálpebras fechadas.

— Que se fodam! — disse.

Nunca dizia palavrões na frente de outras pessoas. Mas uma vez ou outra dizer “que se fodam” era um grande consolo. Saiu do escritório com o sobretudo úmido no braço e foi para o elevador. Sentia as pernas e os braços dormentes e mal podia manter os olhos abertos.

Os Vivos e os Mortos

Estava atrasado!

Quando cheguei ao velório, o primeiro fato que me chamou a atenção dizia respeito a presença de Helena, sentada e prostrada ao abandono no canto mais discreto da capela. Levei algum tempo até perceber que ela encontrava-se alheia ao que ocorria ao seu redor. A falta de percepção para aceitar o óbvio se constituía em uma das duas perspectivas sempre presentes naquelas ocasiões especialmente fúnebres: havia os que encontravam-se mortos, e sabiam disso, mas recusavam a partida derradeira por pendências pessoais mal resolvidas. Havia os que estando mortos, não se davam conta desta condição.

Helena, infelizmente, encontrava-se na segunda perspectiva: ela não sabia que estava morta!


terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 2)

Um homem barbado derrubou com o cotovelo a xícara de café de Kaufman. — Merda! — disse ele.

Kaufman virou-se na banqueta para evitar o café que pingava do balcão.

 — Merda disse o homem outra vez.

— Está tudo bem — disse Kaufman. 

Olhou para o homem com um leve ar de desprezo. O desajeitado filho da mãe estava tentando absorver o café com um guardanapo que, aos poucos, se transformava numa papa úmida. Kaufman ficou imaginando se aquele idiota de cara corada e barba malfeita seria capaz de matar alguém. Haveria naquele rosto de comilão algum sinal, alguma pista, talvez o formato da cabeça ou a expressão dos olhos pequenos, que denunciassesua verdadeira natureza?

O homem se dirigiu a ele.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 1)

Leon Kaufman não era mais um forasteiro naquela cidade. O Palácio das Delícias, como a havia chamado nos dias de sua inocência. Mas isso era quando morava em Atlanta, e Nova York era ainda uma espécie de terra prometida, onde qualquer coisa e tudo eram possíveis.

Agora Kaufman já morava há três meses e meio na sua cidade de sonho, e o Palácio das Delícias não parecia tão delicioso assim. Teria realmente passado apenas uma estação do ano desde que descera na Estação Rodoviária Central e olhara para a Rua 42, na direção do cruzamento com a Broadway? Tão pouco tempo para perder tantas ilusões acalentadas?
Agora, só em pensar na sua ingenuidade, sentia-se embaraçado. Constrangido, lembrava de ter dito em voz alta: “Nova York, eu te amo”. Amor? Nunca! Tinha sido, se tanto, um entusiasmo passageiro. E agora, depois de três meses de vida com o objeto de sua adoração, passando dias e noites dentro dela, a cidade havia perdido toda a aura de perfeição. Nova York era apenas uma cidade.


A Fazenda dos Florence



Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Fantasma da Casa 666


Só agora, depois de 30 anos, minha mãe revelou-me o mistério sobre a morte da senhora Margot. Por muito tempo, durante a minha infância, essa curiosidade me perseguiu. Dizem que os fantasmas da infância, diante dos problemas da vida adulta, costumam ser esquecidos, guardados em algum canto da mente. Falam também que a criança que fomos, a exemplo dos fantasmas, nunca morre, simplesmente fica escondida dentro de nós. Talvez por esse motivo, hoje, dia em que completo 42 anos, foi que, vasculhando as teias de aranha dentro da minha cabeça, encontrei a criança curiosa que um dia fui. Corri até a casa da minha mãe e repeti uma pergunta feita a três décadas: como morreu a proprietária da casa 666?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Alucinação


– Sente-se, por favor. – Disse o Dr. Offenbach.

A mulher obedeceu.

Offenbach, de mãos em concha, uniu os longos dedos pelas extremidades e perscrutou a figura atentamente. A senhora Sílvia Anabel Pissarro de Quiroga era uma mulher na casa dos trinta anos. Gestos comedidos, poderia insinuar uma grave elegância, não fosse todo aquele esforço em conter as torrentes de um espírito atribulado. Estranhamente pálida, tinha o rosto oval e os cabelos quase negros. Os olhos eram uma escura sombra de cansaço. A aflição no olhar a deixava singularmente bela. Agradeceu ao médico com um leve arquear de sobrancelhas.

Rosa aos Mortos


Nos Longínquos anos de 18..., quando o mundo ainda era um lugar assaz aprazível de se viver, eu, em meus dezenove anos, travava conversa com Mr. Oliver, já em seus avançados noventa. Naquela época, viver tanto assim era uma dádiva, mas não para Mr. Oliver. Seus ataques epilépticos aconteciam com uma frequência cada vez maior: Os espasmos e acessos de tosse eram praticamente intermináveis. Eu, vendo-o definhar e sofrer, nada podia fazer senão visitá-lo sempre que possível, contando notícias sobre o mundo. Ele, com seus olhos fechados, ouvidos apurados, escutava a tudo, concordava vez ou outra e, raras vezes, adicionava algum comentário a nossa conversação. Então, quando, em certa ocasião de longo silêncio meditativo, ele falou-me em tom emocionado e voz límpida, não pude deixar de me surpreender.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Homem que Queria Matar o Diabo


Tudo começou nos idos de 1896, lá pras bandas de Juazeiro, uma cidadezinha encalacrada nas caatingas do interior da Bahia. Eu trabalhava nos roçados de café na fazenda do coronel João Evangelista Pereira e Melo, homem de posses e de respeito reconhecido por aquelas terras de fim de mundo. Pedro Henrique, o filho estudado do velho João Pereira, estava muito doente, mais pra lá do que pra cá, tísico, botando sangue pela boca, e tossindo uma tosse seca, catarrenta, coisa feia que só vendo:


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Tradutor

Quando a proprietária do apartamento me disse, muito a contragosto, que o inquilino anterior havia morrido ali, na hora me ocorreu "O Inquilino", meu filme preferido do Polanski, apesar de não ter sido o caso. O inquilino anterior não tentara o suicídio. Foi encontrado morto depois de um mês quando o mau cheiro começou a impregnar o andar. Causa da morte: infarto fulminante. Segundo consta era solitário e anti-social. Como eu. Ela havia ocultado o fato dos pretendentes anteriores, mas não contara com a tagarelice dos vizinhos, o que resultou em sérias dores de cabeça. Desde então resolveu abrir o jogo logo de cara, rezando intimamente para encontrar um inquilino não supersticioso. Demorou, mas apareci.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Retrato da Cabocla


Era uma casa simples de pau a pique, móveis rústicos em poucas quantidades e a poeira estavam ali de propósito.

Era uma casa dentro do museu, a casa da cabocla, assim era chamada e atraia muitas visitas sempre, um movimento dos turistas que sempre queriam passar pela casa da cabocla e ver cada detalhe, cada palha, tecidos de xadrez, cada babadinho das toalhas que deixavam a casa feminina. Queriam ver os vestidos feitos pela própria cabocla e também explorar os quitutes de mentira que colocaram de enfeite sobre a mesa e os armários na cozinha.

Nesta casa, bem no centro da casa, na sala, havia um quadro, um retrato grande de uma cabocla, bonita com seus cabelos presos possivelmente em um coque, a boca cerrada e um par de brincos de pérolas. A sobrancelha bem feita e os olhos fundos, porém vivos, acompanhava cada pessoa que por ali passava.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Brincando com o Desconhecido


Sexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua: 


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Pata do Macaco

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

– Ouça o vento – disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

– Estou escutando – disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.

– Xeque.

– Eu duvido que ele venha hoje à noite – disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

– Mate – replicou o filho.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bruxaria


Palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Homicídio Perfeito

A  deformidade  de  meu  caráter  jamais  me  envergonhou. Espírito astuto e dissimulado, nunca me expunha a quem quer que seja.   A minha  alma  exsudava  humores  peçonhentos,  malgrado imperceptíveis, mas eu bem sabia como, sorrateiramente, inocular o meu veneno. Era eu um predador cauteloso. Como uma serpente astuta e  insidiosa, mergulhava e recolhia, num átimo de um único segundo, as  presas precisas – profundas e aguçadas –, sem que a vítima o  percebesse.  Isto mesmo: só ensaiava o meu bote certeiro quando se menos esperava.

A Última Execução


Sou filho do ferreiro Alphonse e de Nelly, uma ex-cortesã da taverna dos prazeres. Mamãe deveria morrer em alguns dias. Está muito mal e vem sofrendo demasiadamente com a lepra. Uma peste que ataca a tez e impinge círculos purulentos por todo corpo. Mas ela ainda nutre alguma esperança. Papai se sentou na cadeira de rodas, um hediondo patíbulo, e nunca mais se levantou. Uma viga de ferro caiu sobre suas costas, tornando-o aleijado para todo o sempre. Agora, espera – ansiosamente - a morte escolhê-lo como o próximo. Também é leproso! Ele quer morrer, ela quer viver.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Morte me Esqueceu

Hoje completo 159 anos. Acho que o vento do tempo passou por mim despercebido. Já não sei se é privilegio ou condenação a viver tanto.  Devo ser o humano mais velho do planeta. Digo isso, porque nunca revelei minha idade real para ninguém. E não me interesso em casos de longevidade. Tenho horror a ficar em evidência. Ficar famoso por ser muito velho não me apraz. As pessoas ficariam me olhando como se eu fosse um museu ambulante. “Olha, lá vai um homem com quase 160 anos”. Isso me incomodaria. Aceito a minha idade naturalmente, essa realidade não posso mudar. E ninguém precisa se preocupar com isso. Cada um que viva o seu tempo ou seus tempos. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Corpo Seco


Uma súbita e quente rajada de vento levantou com ímpeto os particulados áridos e as folhas avulsas daquele vasto campo à beira da estrada. Embora marcante, a ação da ventania não se mostrou duradoura, não tardando para que a calmaria voltasse a reinar nas cercanias do distante pomar.

Nenhuma anormalidade se mostrava evidente nos numerosos e diversificados exemplares frutíferos ali expostos. A exceção se fazia valer numa alta e frondosa mangueira, cujos frutos jaziam no chão. A exuberância em degrade verde e dourado era assaltada por uma ação invisível e avassaladora, a qual tomava para si o viço marcante dos frutos, entregando a eles, em contrapartida, um revestimento acinzentado e opaco, um frágil castelo elevado aos céus pelo delicado beijo de uma simples corrente de ar.

O Deus dos Desejos Sórdidos

A batida frase de que só damos valor a uma pessoa quando a perdemos é uma das premissas mais verdadeiras senão a mais verdadeira de todas as premissas. Talvez ninguém nunca tenha parado para pensar como a vida segue um ritmo cíclico mediante as nuances e fatos sobre o valor da perda. Muitas das vezes, estes fatos simplesmente são inferidos ao mero acaso. Porém, nada é por acaso, encontrar um velho amigo e uma antiga namorada depois de tanto tempo num coletivo ou numa fila de banco pode ser considerado um acaso, mas não a premissa de que só damos valor às pessoas quando as perdemos, pois no cíclico ritmo da vida, ora essa pessoa lhe é essencial, ora um objeto que pode ser substituído por uma aventura extraconjugal ou por uma obsessão desmedida por algo que no fim, acaba não valendo a pena. E quando todas as frustrações vêm à tona num verdadeiro e devastador tsunami de desolações, o cíclico ritmo da vida devolve a essência inicial a qual aquela pessoa representava, e ai, meu chapa, é tarde demais, pois a dor da ausência aperta o coração como se mãos espectrais atravessassem o peito. E foi nesse tsunami de desolações que eu dei falta de Maria Luíza, depois eu apenas quis matá-la.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Coleção De Bonecas

O céu estava azul e limpo, nem se quer uma nuvem no céu apaziguava o sol leve, porém intenso. O trigo dourado refulgia sob seus raios, tombado pela leve e gélida brisa que soprava durante a manhã. A pequena camponesa, tão branca quanto à neve que cairia nos próximos meses, com as bochechinhas gorduchas rosadas pelo frio e de cabelos tão dourados quanto o trigo, andava pelo meio da plantação, olhando os pequenos insetos que por ali ficavam. Eventualmente tropeçava em um ou outro buraco.

– Bom dia, senhor Espantalho!- disse ela contente para o velho, murcho e esfarrapado espantalho que ela tanto insistira para a mãe costurar. – Você nunca me responde não é mesmo?

O espantalho permaneceu imóvel, na sua quietude de farrapos e migalhas.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Mágico e o Mago


Praça da Sé, São Paulo. O jovem de roupas pretas, camisa aberta e maquiagem negra nos olhos sabe que, naquele momento, a multidão à sua volta está torcendo para que tudo dê errado e eles tenham uma bela história de desgraça para contar, sobre um idiota aveadado metido a mágico que foi parar no hospital.

Ele respira fundo e se concentra no truque que vai executar. Afinal, se der errado, ele realmente pode acabar no hospital.

A imensa cruz em X está deitada no chão. Ele caminha e se deita sobre ela. Seus assistentes se aproximam e, com auxilio de pesadas marretas, começam a pregá-lo na cruz, com grossos pregos, que fazem jorrar sangue de suas mãos.

Seu rosto se cotorce como se suportasse uma dor lancinante em silêncio. A platéia se admira, pois a visão de alguém sendo crucificado tem sempre um apelo muito forte.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Tumba - H. P. Lovecraft



Ao relatar as circunstâncias que conduziram ao meu confinamento neste asilo de loucos, tenho consciência de que minha posição atual criará dúvidas naturais acerca da autenticidade de minha narrativa. É grande infortúnio o fato de que o grosso da humanidade seja limitado demais, em sua visão mental, para pesar com paciência e inteligência esses fenômenos isolados, vistos e sentidos apenas por uma minoria psicologicamente sensível, os quais jazem fora de toda experiência comum. Homens de intelecto mais amplo sabem que não existe nenhuma distinção precisa entre o real e o irreal; que todas as coisas aparecem como tais apenas em virtude dos delicados meios psíquicos e mentais de cada indivíduo, por meio dos quais nos tornamos conscientes delas; mas o materialismo prosaico da maioria reputa como loucura os lances de visão superior que perfuram o véu comum do empirismo óbvio.


Meu nome é Jervas Dudley, e desde a mais tenra infância tenho sido um sonhador e um visionário. Rico para além das necessidades de uma vida comercial, e de um temperamento inapto para os estudos formais e o recreio social daqueles com quem me relaciono, tenho lidado desde sempre em reinos que não pertencem ao mundo visível, passando minha juventude e minha adolescência debruçado sobre livros antigos e pouco conhecidos e a percorrer os campos e bosques das cercanias de meu lar ancestral. Não creio que o que li nesses livros ou vi nesses campos e bosques fosse exatamente o que os outros rapazes leram e viram ali, mas sobre isso preciso falar pouco, pois que discorrer mais detalhadamente apenas confirmaria essas calúnias cruéis acerca de meu intelecto que às vezes ouço sussurrarem os atendentes furtivos que me rodeiam. Basta-me relatar os eventos, sem analisar as causas.




O Noivado Infeliz De Aurélia

Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.

Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria – provavelmente um pseudônimo.

A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Matéria Cinzenta - Stephen King

Durante toda a semana vinham prevendo uma tempestade do norte e ela chegou por volta de quinta-feira, uma nevasca violenta, com ventos uivantes, que deixou uma camada de dez centímetros de neve às quatro da tarde e não deu sinal de arrefecer. Os quatro ou cinco de costume estavam reunidos em torno do Confiável no Coruja Noturna de Henry, que é o único estabelecimento para cá de Bangor que fica aberto dia e noite.  

Henry não faz grandes negócios ― o movimento, em grande parte, resulta de vender cerveja e vinho aos universitários ―, mas ganha o suficiente para viver bem e o bar é um bom lugar para nós, velhos aposentados, nos reunirmos e falarmos de quem morreu e de como o mundo está indo para o brejo. 

Nessa tarde, Henry estava ao balcão; Bill Pelham, Bertie Connors, Carl Littlefield e eu estávamos perto do fogão. Lá fora, nenhum carro se movimentava na Ohio Street e os tratores de limpar neve trabalhavam como loucos. O vento soprava forte, formando montinhos de neve que pareciam o dorso de um dinossauro. 

O Círculo De Sal

"Meu Deus, como eu vou sair dessa agora?"

Sentada no chão, tendo à sua volta apenas um círculo feito de sal grosso, Thammires forçava o rosto contra as palmas das mãos, em desespero. E, diga-se de passagem, seu desespero era plenamente justificado pelos acontecimentos daquela noite.

Olhou a sua volta pela milésima vez: o pequeno porão, que os donos da casa haviam convertido em despensa, iluminado pela luz de uma velha lâmpada de sessenta watts, não apresentava mais nenhuma saída além da porta que a levaria de volta para o andar térreo da casa. E, naquela casa, ela nunca mais iria pôr os pés. Aliás, se tivesse seguido seu pressentimento inicial, não estaria ali agora. Não estaria naquela situação, agora. E Jared ainda estaria vivo.

A lembrança de Jared trouxe lágrimas novamente aos seus olhos, mas ela forçou-se a não chorar. Haveria tempo para isso mais tarde. Chorar agora seria um luxo que ela não podia sustentar. Precisava estar focada em sua sobrevivência.

Continuou observando o porão. Não havia janelas. Isso era bom. Não podiam entrar. Mas isso também era péssimo. Ela não podia sair. Mas também, sair iria resolver alguma coisa? Sua última tentativa de deixar a casa havia sido desastrosa. Ela estava encharcada. Enrolou-se em alguns panos de chão que encontrou no porão. Tinha que evitar a hipotermia a todo custo. Fosse devido ao frio ou ao cansaço, não podia dormir, tinha que estar atenta.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Homem Que Adorava Flores - Stephen King


No início de uma noite de maio de 1963, um jovem com a mão no bolso subia energicamente a Terceira Avenida em Nova York. O ar era suave e lindo, o céu escurecia gradativamente de azul para o belo e tranqüilo violeta do crepúsculo. Existem pessoas que amam a metrópole e aquela era das noites que motivavam esse amor. Todos os que estavam parados às portas das confeitarias, lavanderias e restaurantes pareciam sorrir. Uma velha empurrando dois sacos de verduras num velho carrinho de bebê sorriu para o jovem e o cumprimentou 

― Oi, lindo! O jovem retribuiu com um leve sorriso e ergueu a mão num aceno. Ela seguiu caminho, pensando: Ele está apaixonado. 

O jovem tinha aquela aparência. Usava um terno cinza-claro, a gravata estreita ligeiramente frouxa no colarinho, cujo botão estava desabotoado. Tinha cabelo escuro, cortado curto. Pele clara, olhos azuis-claros. Não era um rosto marcante, mas naquela suave noite de primavera, naquela avenida, em maio de 1963, ele era lindo e a velha refletiu com instantânea e doce nostalgia que na primavera qualquer pessoa pode ser linda... se estiver indo às pressas encontrar-se com a pessoa de seus sonhos para jantar e, talvez, depois dançar. A primavera é a única estação em que a nostalgia parece nunca tornar-se amarga e a velha seguiu seu caminho satisfeita por haver cumprimentado o rapaz e alegre por ele haver retribuído o cumprimento erguendo a mão num aceno. 


O Poço e o Pêndulo - Edgar Allan Poe


Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a idéia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos – finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome – e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Campo De Batalha - Stephen King

A voz do recepcionista deteve-o a meio caminho do elevador e Renshaw voltou-se, impaciente, passando a maleta de vôo de uma mão para outra. O envelope em seu bolso, cheio de notas de vinte e cinqüenta dólares, estalou audivelmente. O trabalho correra bom e o pagamento fora excelente ― mesmo depois da redução dos 15% de comissão cobrados pela Organização como taxa de agenciamento. Agora, tudo que ele queria era um chuveiro quente, um gim-tônica e dormir. 

― O que é? 

― Uma encomenda, senhor. Quer assinar o recibo, por favor? 

Renshaw assinou e fitou pensativamente o pacote retangular. Seu nome e endereço estavam escritos na etiqueta gomada, numa caligrafia inclinada que lhe parecia familiar. 

Balançou o pacote sobre a superfície imitando mármore do balcão e algo produziu um leve ruído metálico lá dentro. 

― Quer que eu mande levar lá em cima, Sr. Renshaw? 

― Não. Está bem assim. 

O pacote tinha cerca de meio metro de comprimento e se ajustava um tanto desajeitadamente sob seu braço. Renshaw deixou-o sobre o espesso tapete que cobria o chão do elevador e girou a sua chave na abertura correspondente ao apartamento de cobertura, que ficava acima dos botões dos andares normais. O elevador subiu, silencioso e macio. Renshaw fechou os olhos e reviu o trabalho na tela escura de sua mente. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Caçando Lobisomens

No início dos anos 40, em um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, vivia um sujeito chamado Eleutério, que, segundo diziam, "virava" lobisomem, mas, até então, ninguém havia provado nada. Era um sujeito de poucas palavras, que trabalhava em uma granja, onde tinha um quarto para dormir.

Quatro jovens amigos (três rapazes e uma moça), voltavam de um espetáculo no circo recém-armado na cidade. Era noite de lua cheia, de quinta para sexta-feira, ocasião em que, segundo a crença popular, uma pessoa amaldiçoada, ou que padecesse do mal da licantropia, seria influenciada pela lua cheia a se transformar (ou se convencia estar transformada) em lobisomem. Era, portanto, uma noite típica, daquelas que, pela presença da enorme lua cheia pairando no ar, as pessoas, no mínimo, pensavam em coisas desse tipo, principalmente aquelas influenciadas por histórias de terror, com os monstros da distribuidora Universal Filmes, famosos na década anterior.

sábado, 14 de setembro de 2013

O Demônio e o Anjo

Como acabei de dizer no "Tá Duvidando", estou com um pouco de pressa, então este texto pode conter alguns pequenos erros, caso encontre algum, por favor, avise nos comentários.

De longe, sentado sobre um sofá de couro negro rasgado e deteriorado pelo tempo, dentro de uma casa abandonada em frente a este fatídico prédio, lá estava ele. Olhando a movimentação dos carros de polícia e das ambulâncias, que não paravam de ir e vir, retirando os corpos dos infelizes. Foi um massacre.

Noite passada ele lembrou, como o gosto da carne ainda estava em sua boca. Não tinha culpa. Aquilo fora pedido. Aquilo fora cobrado dele. Todas aquelas pessoas não mereciam morrer, somente uma parcela. Porém, quando a raiva chega não há controle.

E ele se lembrava de cada momento que havia passado até então.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Recomeço

Alguns anos no futuro...


"Papai, porque eles nos odeiam?"


"Oh querida, pode parecer que eles nos odeiam, mas na verdade, eles nos escolheram".


"Mas papai, porque eles estão fazendo isso?"


"Não sei querida, mas, infelizmente, essa é a vontade deles. Esta será a última vez que isso acontece, o mundo vai ver... Há um velho ditado que diz que é preciso destruir antes que se possa criar. É como quando você brinca com seus blocos de montar. Antes de construir algo novo, você tem desmontar o que tinha feito antes. A mesma coisa acontece com os homens e as cidades". 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Árvore Dos Enforcados



Quando a norte-americana Eletronics Company Empire resolveu montar sua filial brasileira em nossa cidade, eu era um jovem de vinte e cinco anos, havia me formado em informática na universidade local e ansiava por encontrar um emprego seguro que influenciasse minha namorada a decidir-se favoravelmente ao meu pedido de casamento. Samira estava relutante a respeito do matrimônio simplesmente porque não tínhamos estabilidade financeira, ela trabalhava como tradutora free-lance e seu pai era um homem amargurado, abandonado pela esposa e que via a vida se esvaindo enquanto media areia num depósito de material de construção; eu era um caipira órfão que me sustentava com as parcas rendas de uma criação de cabras, galinhas e algumas vacas leiteiras de um sítio recebido de herança de meus pais. Um sítio que era considerado pela população como lugar amaldiçoado – a cem metros da única casa da propriedade, uma edificação de dois andares, velha, de madeira, grande e sombria, havia uma imensa árvore centenária, esgalhada, com a terrível fama de atrair pessoas desesperadas.