domingo, 29 de dezembro de 2013

A flor de U'zltrilix

Conforme dito lá no "Tá Duvidando?", o blog está um pouco parado neste final de ano, mas voltarei à postar normalmente na segunda semana de 2014. 

Levando em conta o resultado da enquete que eu fiz, hoje vou fazer o primeiro post de ficção científica. Espero que gostem e peço que deixem seus comentários dizendo o que acham dos contos deste gênero.

    Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?

    Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Balsa - Stephen King (Parte 2)

Então, saiu da água e o ar frio mordiscou-lhe a pele, mordiscou-o ainda com mais vigor do que a água, quando nela mergulhara.

— Ohhhhhh, merda! — gritou, rindo e tiritando em sua sunga.

— Pancho, tu és um moleirão! — exclamou Deke, satisfeito. Ajudou-o a subir para  a balsa. — Está frio demais pra você? Tudo bem?

— Tudo bem comigo! Tudo bem comigo!

Randy começou a pular como Deke havia feito, cruzando os braços sobre o peito e estômago, em um X. Os dois se viraram para as garotas. Rachel ultrapassara LaVerne, esta exibindo um estilo cachorrinho, executado por um cão de maus instintos.

— As senhoritas estão bem? — gritou Deke.

— Vá para o inferno, Senhor Machão! — gritou LaVerne.

Deke não a importunou mais. Randy olhou para o lado e viu que a curiosa mancha escura e circular estava agora mais próxima — agora a dez metros e ainda aproximando-se. Flutuava na água, redonda e circular, como o topo de um grande latão de aço, porém a maneira frouxa como se movia deixava perceber que não era a superfície de um objeto sólido. O medo, errante, mas poderoso, tomou conta dele.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Amigo de Seis Semanas

Um dos piores sons deste mundo é ouvir um bocado de terra cair sobre a tampa do caixão onde está seu amigo. Após presenciarem seu colega, que em pouco tempo já tinha uma relação fraternal, descansar eternamente embaixo da terra ele partiu de mãos dadas com a mulher chorosa mais a criança. Seguiram para fora do cemitério sem dizerem uma única palavra, em respeito ao morto. Sejamos racionais: Quem nunca acreditou ou iludiu-se com alguém? Seria melhor recapitular este caso para que possamos compreender o que vale em uma amizade.


Seis semanas antes Virgílio, sem aviso prévio, sofreu um mal súbito quando seguia para o trabalho. Ele sentiu uma forte ardência no braço direito, acompanhada pela falta de fôlego, perdeu os sentidos e desabou no piso da lotada estação de metrô. Sua parada cardiorrespiratória virou atração para todos os passageiros, um bom assunto que muitos iriam expor no trabalho. Assim o corpo de Virgílio perdia suas energias vitais no meio daquelas centenas de gente aguardando o próximo trem. A alma do recém-defunto desprendera-se da carne desamparada e doente, ficando ao chão somente um corpo abatido, com coração infartado e ventrículo fibrilando.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Balsa - Stephen King (Parte 1)

São uns sessenta e cinco quilômetros, da Universidade Horlicks, em Pittsburgh, até o Lago Cascade, e embora em outubro escureça cedo nessa parte do mundo, e apesar deles só partirem às seis horas, ainda havia uma ligeira claridade no céu quando chegaram lá. Tinham ido no Camaro de Deke. Deke não perdia tempo, se estava sóbrio. Após duas cervejas, fazia o Camaro caminhar e falar. Ele mal havia parado o carro junto à cerca de estacas, entre o pátio de estacionamento e a praia, quando saltou para o chão e tirou a camisa. Seus olhos esquadrinhavam a água, à procura da balsa. Randy saiu do banco ao lado do motorista, algo relutante. A idéia tinha sido sua, claro, porém nunca esperara que Deke a levasse a sério. As garotas se remexiam no banco traseiro, preparando-se para descer.

Os olhos de Deke perscrutaram as águas incessantemente, de um lado para outro (olhos de atirador de tocaia, pensou Randy, desconfortavelmente), e então se fixaram em um ponto.

— Está lá! — gritou, dando um tapa no capô do Camaro. — Bem como você disse, Randy! Que barato! O último a chegar é um ovo podre!


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Você já quis matar alguém?

Quem nunca tirou uma vida não pode entender as razões de quem já o fez. Por isso, não tente aplicar a mim as suas noções de justiça, necessidade ou prazer. Vou contar a minha história não para que você me julgue, mas para que a experimente, se for capaz.

Meu pai sempre teve armas em casa. Era colecionador. Eu nunca pusera um dedo em nenhuma, pois sabia que o velho me arrancaria o couro, talvez literalmente. Quando íamos para o sítio da família no interior, ele sempre levava pelo menos uma espingarda de chumbinho. Eu o observava acertar alvos parados, depois móveis, e aquilo podia proporcionar horas de agonia para minha mãe, que ficava mais pálida a cada tiro ouvido a distância. Não é um esporte para pessoas frágeis.

Nosso caseiro era um homem de uns 50 anos, com cara de mais de 60, sem esposa, filhos ou dinheiro, que meu pai empregara por piedade. Mas em pouco tempo os vizinhos do interior começaram a nos telefonar em São Paulo queixando-se de que o homem aprontava nos botecos da cidadezinha, completamente bêbado, arranjando encrenca com os peões. Quando contratamos o pobre viúvo, não sabíamos que era um alcoólatra.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Prerrogativas

Ela jogou os cabelos para trás uma, duas, três vezes, no ritmo dos próprios gemidos. Atrás, o homem bufava, ia e vinha, eufórico. Ela fazia o que ele queria. Fazia tudo o que eles queriam. De frente, de lado, de costas, sobre o chão de folhas secas, acuada contra as árvores ou imersa no lamaçal. Em silêncio ou aos berros. Era sua prerrogativa.

Abordava-os no meio da estrada que atravessava o bosque. Nua, a pele de cera reluzindo ao luar, os cabelos de fogo fazendo espirais sobre seus seios, derramando-se em cascata nos quadris, lambendo-lhe mesmo os calcanhares. Uma visão. Uma Vênus. Braços estendidos. Venha. Faça de mim o que quiser.

O Guardião


Sempre tivera uma impressão errada do serviço de guardião noturno. Principalmente por conta da imagem impregnada no consciente coletivo, formada por anos e anos de bombardeio de filmes americanos. A visão era clara: um uniforme parecido com o da policia, um cassetete e uma lanterna para iluminar um labirinto de corredores.

Realidade e expectativa são separadas por um abismo. Nada de uniforme. O cassetete é um pedaço de madeira arranjado por ele mesmo e que lhe enche a mão de farpas. Não tinha lanterna, pois todas as luzes posam acesas. Não precisa percorrer todos os corredores, pois do pátio central tem uma visão de quase todos os cantos da escola. Onde a visão não alcança, ele julga ser sem importância. Na verdade lhe falta um pouco de coragem para chegar mais perto e verificar todos os cantos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Encantadora


Naquela noite, quando ele pediu abrigo na casa de meu pai, eu olhei em seus olhos e soube que deveria ser sua até meu último alento. Por isso, não hesitei em levá-lo pela mão ao velho celeiro, onde nos entrelaçamos como serpentes sobre a palha e uivamos como lobos até o amanhecer.

Eu já não era uma donzela então, mas meu conhecimento do corpo do homem deu-lhe prazer repetidas vezes e ele nunca me perguntou quem haviam sido os outros. Isso não importava. Foi assim ao longo de todo um ano. Ele vinha da fazenda onde trabalhava para o celeiro. Lá, eu o esperava como a terra espera a chuva, e nós ríamos, nus, comendo as amoras que eu trazia do bosque.

No inverno seguinte, meu velho pai faleceu da tosse sanguinolenta que eu pudera apenas tratar com meus elixires e vapores, mas nunca curar. Fiquei sozinha. Então, disse ao meu amante que ele deveria ser o novo homem da casa.Sei que me aceitaria prontamente como sua mulher, mas ele morava ainda com a mãe, alma triste que não queria ver seu menino tornar-se um varão. Ela me chamou de messalina e encantadora de homens e disse que ele seria infeliz ao meu lado, pois eu me deitaria em outras camas e ele teria de alimentar os filhos de outros homens. Ela não abençoou nossa união.