terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Balsa - Stephen King (Final)

Leia as partes anteriores clicando nos links abaixo:
Parte 1
Parte 2
Parte 3

Randy olhou para a superfície da balsa. Podia deitá-la, naturalmente, mas as tábuas só tinham uns trinta centímetros de largura. Havia uma plataforma para mergulho que era adaptada à balsa durante o verão, mas pelo menos isso fora desmontado e guardado em algum lugar. Nada mais restava senão o próprio piso da balsa, quatorze tábuas, cada uma com trinta centímetros de largura e seis metros de comprimento. Não era possível deitá-la, deixar seu corpo sem sentidos sobre qualquer daquelas fendas.

Pise em uma fenda, e sua mãe ofenda.

Cale-se.

E então, tenebrosamente, sua mente sussurrou: Vá, mesmo assim. Deite-a aí e nade para a salvação!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os Olhos que Comiam Carne


Paulo Fernando mergulhou o rosto nas mãos, e quedou-se imóvel, petrificado pela verdade terrível. Estava cego. Acabava de realizar-se o que há muito prognosticavam os médicos.

A notícia daquele infortúnio em breve se espalhava pela cidade, impressionando e comovendo a quem a recebia. A morte dos olhos daquele homem de quarenta anos, cuja mocidade tinha sido consumida na intimidade de um gabinete de trabalho, e cujos primeiros cabelos brancos haviam nascido à claridade das lâmpadas, diante das quais passara oito mil noites estudando, enchia de pena os mais indiferentes à vida do pensamento. Era uma força criadora que desaparecia. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Diabo e o Relojoeiro

Vivia na paróquia de St. Bennet Funk, perto do Royal Exchange, uma honesta e pobre viúva que, depois de morto o marido, passou a aceitar sublocatários em sua casa. Ou seja, locou alguns de seus quartos a fim de reduzir os custos com o aluguel. Entre outros, cedeu sua mansarda a um artesão que fazia engrenagens para relógios, e que trabalhava para relojoarias, conforme era o costume nessa atividade.

Certa feita, um homem e uma mulher subiram para falar com o relojoeiro sobre algum assunto relacionado ao seu mister. E quando estavam próximos dos últimos degraus, viram, pela porta escancarada da água-furtada, que o homem – relojoeiro ou fabricante de engrenagens - havia-se enforcado numa viga que se prolongava pouco abaixo do teto. Atônita com aquele cenário, a mulher parou e gritou ao homem, que lhe seguia, para que corresse e cortasse a corda que sustentava o infeliz.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Encruzilhadas

Algo aconteceu dentro do corpo da velha e o resultado para quem estava do lado de fora foi como se um pé de vento gelado houvesse atravessado o automóvel de um lado a outro. O garoto percebeu e, a despeito da idade, achou aquilo estranho. No mínimo gozado.

      — O que houve, vovó?

      Catarina fitou o rosto rosado do menino sentindo a corrente elétrica que trespassara seu corpo diminuir até esgotar por completo. Pousou de leve a mão manchada por sobre a pequenina do neto e disse com suavidade:

      — Nada. Não houve nadinha mesmo.

      — Você tremeu como se estivesse com frio. Ainda está arrepiada, olha aqui.  Apontou o braço da avó e sorriu encarando aqueles montículos que haviam se formado quase por vontade própria em toda a pele dela.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Balsa - Stephen King (Parte 3)

Leia primeiro as partes anteriores:
Parte 1
Parte 2

LaVerne gritava. Randy se virou, em tempo de vê-la tapar os olhos melodramaticamente com uma das mãos, parecendo uma heroína de filme mudo. Pensou que ia rir e dizer-lhe o que imaginara, mas constatou que não conseguia emitir nenhum som. Tornou a olhar para Rachel. Praticamente, ela não estava mais lá. Suas contorções haviam diminuído, a ponto de não passarem de espasmos. O negrume espojou-se sobre ela — agora maior, pensou Randy, está maior, não há a menor dúvida — com silenciosa e muscular força. Viu a mão de Rachel agitar-se contra aquilo; viu a mão começar a ficar presa, como que aderida a melaço ou papel pega-moscas; viu-a desaparecer. Agora, havia apenas um senso das formas dela, não na água, mas na coisa preta, não se virando, mas sendo virada, a forma se tornando menos e menos identificável, um lampejo branco — ossos, pensou nauseado, e virou o rosto, vomitando inapelavelmente por sobre uma borda da balsa.

LaVerne ainda gritava. Houve então um pláft! surdo, e ela parou de gritar, começando a acalmar-se.

Ele a esbofeteou, pensou Randy. Eu queria fazer isso, lembra-se?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Charles Dickens - Paixões Violentas


Charles Dickens – dizia um periódico fluminense do século XIX –, célebre romancista inglês, inspirou a muitas de suas leitoras paixões violentas. E só podemos atribuir tais paixões arrebatadoras – paixões de vida e morte - ao imenso poder de sedução que irradiava não da figura do escritor, mas de seus contos e romances, publicados em jornais ingleses, na forma de folhetim.