quinta-feira, 6 de março de 2014

A Máquina de Passar Roupa - Stephen King

Como já foi dito no "Tá Duvidando?", eu (Michael) estou com dificuldade para fazer novos posts devido a crescente falta de tempo. Por esse motivo o texto a seguir não foi editado, mas está completo e eu posso garantir que é um ótimo conto, assim como todos os outros desse autor. Aproveite!

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O Guarda Hunton chegou à lavanderia quando a ambulância já partia ― devagar, sem sereias ou luzes piscando. Mau presságio. Lá dentro, o escritório estava abarrotado de pessoas inquietas e caladas, algumas das quais choravam. A lavanderia propriamente dita estava vazia; as grandes lavadoras automáticas na extremidade oposta nem mesmo tinham sido fechadas. Aquilo fez Hunton ficar muito atento. A multidão devia estar no local do acidente, não no escritório. Era o que costumava acontecer: o animal humano possuía uma compulsividade inata para ver os restos mortais. Então, fora coisa muitíssimo séria. Hunton

sentiu um aperto no estômago, como sempre acontecia quando o acidente era muito grave.Quatorze anos de remover restos humanos de rodovias, ruas, sarjetas em frente a arranhacéus altíssimos não haviam conseguido eliminar aquela leve contração na barriga, como se alguma coisa maléfica se tivesse coagulado ali.


Um homem de camisa branca avistou Hunton e se encaminhou para ele com
relutância.

Era um touro de um homem, com a cabeça atirada para frente entre os ombros, nariz
e bochechas riscadas por vasos sangüíneos dilatados pela pressão alta por demasiada
intimidade com a garrafa. Tentou articular palavras, mas, após a segunda tentativa, Hunton
interrompeu-o vigorosamente:
― É o proprietário? É o Sr. Gartley?
― Não... não. Sou Stanner. O capataz. Oh, Deus, este...
Hunton tirou do bolso a caderneta de anotações.
― Por favor, mostre-me a cena do acidente, Sr. Stanner. E conte-me o que
aconteceu.
Stanner pareceu empalidecer ainda mais; as manchas no nariz e bochechas
destacavam se como marcas de nascença.
― E... é preciso?
Hunton ergueu as sobrancelhas.
― Temo que sim. O chamado que recebi disse que era grave.
― Grave...
Stanner deu a impressão de lutar contra a própria garganta; por um instante, seu
pomo-de-adão subiu e desceu como um macaco num poste.
― A Sra. Frawley morreu. Jesus Cristo! Como eu gostaria que Bill Gartley
estivesse aqui.
― O que aconteceu?
Stanner disse:
― Acho melhor o senhor vir até aqui.
Conduziu Hunton ao longo de uma fila de passadeiras manuais, uma máquina de
dobrar camisas e parou junto a uma máquina de marcar roupas. Passou a mão trêmula pela
testa.
― Terá que ir sozinho, seu guarda. Não posso olhar outra vez. Fico... Não posso.
Sinto muito.
Hunton rodeou a máquina de marcar com um leve sentimento de desprezo pelo
homem.
Trabalham sem maiores precauções, cortam caminho, fazem passar vapor fervente
por canos soldados à moda doméstica, manipulam produtos químicos perigosos sem a
proteção adequada e, afinal, alguém se machuca. Ou morre. Então, não suportam olhar.
Não podem...
Hunton viu.
A máquina ainda funcionava. Ninguém a desligara. A máquina que ele
posteriormente passou a conhecer intimamente: a Passadeira e Dobradeira de Alta
Velocidade Hadley-Watson Modelo-6. Um nome comprido e desajeitado. O pessoal que
trabalhava ali, no calor e umidade, tinha um nome mais apropriado para ela: a
estraçalhadora.
Hunton lançou à máquina um olhar prolongado e frio. Então, pela primeira vez em
seus quatorze anos de guardião da lei, virou-se, levou convulsivamente a mão à boca e
vomitou.
― Você não comeu muito ― disse Jackson.
As mulheres estavam lá dentro, lavando a louça e conversando sobre crianças
enquanto
John Hunton e Mark Jackson sentavam-se nas cadeiras de jardim perto da aromática
churrasqueira. Hunton sorriu levemente ao escutar o eufemismo. Ele não comera nada.
― Houve um ruim hoje ― disse ele. ― O pior.
― Acidente de automóvel?
― Não. Industrial.
― Sujo?
Hunton não respondeu de imediato, mas fez uma careta involuntária de repulsa.
Tirou uma cerveja da geladeira portátil colocada entre as duas cadeiras, abriu-a e tomou a
metade.
― Suponho que vocês, professores universitários, nada saibam a respeito de
lavanderias industriais, não é mesmo?
Jackson soltou uma risadinha.
― Este aqui conhece. Passei um verão trabalhando numa delas, quando era
estudante.
― Então, conhece a máquina que chamam passadeira de alta velocidade?
Jackson meneou a cabeça em afirmativa.
― Claro. Servem para passar roupas lisas úmidas, principalmente lençóis e roupas
de cama e mesa. Uma máquina grande e comprida.
― Isso mesmo ― disse Hunton. ― Uma mulher chamada Adelle Frawley foi
apanhada pela máquina na Lavanderia Faixa Azul, no outro lado da cidade. A máquina
sugou-a.
Jackson pareceu repentinamente enjoado.
― Mas... isso não pode acontecer, Johnny. Existe uma barra de segurança. Se uma
das mulheres que colocam roupas na máquina enfiar inadvertidamente a mão nela, a barra
sobe e pára a máquina. Pelo menos, é assim que me recordo.
Hunton meneou a cabeça, concordando.
― É uma lei estadual. Mas aconteceu.
Hunton fechou os olhos e, no escuro, viu novamente a passadeira de alta velocidade
adley-Watson, como acontecera naquela tarde. A máquina formava uma grande caixa
retangular, com dez metros por dois. Na extremidade de alimentação, uma correia
transportadora de lona corria sob a barra de segurança, subindo ligeiramente e depois
descendo. A correia transportava lençóis úmidos e amarrotados, num ciclo contínuo, por
cima e por baixo de dezesseis enormes cilindros rotativos que constituíam o corpo principal
da máquina. Por cima de oito e por baixo de oito, comprimidos contra eles como fatias finas
de presunto entre camadas de pão superaquecido. O calor do vapor nos cilindros podia ser
regulado até 300 graus, para secamento máximo. A pressão sobre os lençóis transportados
pela correia era de 800 libras por polegada quadrada, a fim de eliminar qualquer ruga.
E, de algum modo, a Sra. Frawley fora apanhada e arrastada para o interior da
máquina.

O aço, os cilindros de passar recobertos de asbestos estavam vermelhos como tinta
de celeiro e o vapor que se erguia da máquina trazia consigo o enjoativo cheiro de sangue
aquecido. Pedaços de sua blusa branca e calças azuis, até mesmo fragmentos rasgados do
sutiã e das calcinhas, tinham sido arrancados e ejetados pela extremidade oposta da
máquina, a dez metros de distância, os pedaços maiores de tecido dobrados com grotesca e
sanguinolenta perfeição pela dobradeira automática. Contudo, nem mesmo isto fora o pior.

― Tentei dobrar tudo ― disse ele a Jackson, sentindo gosto de bile na garganta. ―
Mas uma pessoa não é um lençol, Mark. O que eu vi... o que restava dela...
Como Stanner, o desaventurado capataz, ele não põde terminar.
― Levaram-na numa cesta ― disse em voz baixa.
Jackson assoviou.
― Quem vai ser degolado? A lavanderia ou os fiscais estaduais?
― Ainda não sei ― replicou Hunton.
A imagem maligna ainda lhe pairava na mente, a imagem da estraçalhadora
assoviando, batendo, vibrando, o sangue escorrendo em filetes pelos lados verdes da
comprida caixa, o cheiro de queimado da mulher...
― Depende de quem aprovou aquela maldita barra de segurança e em que
circunstâncias o fez.
― Se for a gerência, conseguirão escapar desta?
Hunton sorriu sem humor.
― A mulher morreu, Mark. Se Gartley e Stanner estavam fazendo economia na
manutenção da passadeira de alta velocidade, irão para a cadeia. Não interessa se conhecem
alguém na câmara municipal.
― Acha que eles faziam isso?
Hunton lembrou-se da Lavanderia Faixa Azul, mal iluminada, o chão molhado e
escorregadio, algumas das máquinas incrivelmente antigas e barulhentas.
― Creio que é provável ― respondeu em voz baixa.
Levantaram-se para entrar juntos na casa.
― Conte-me o resultado, Johnny ― disse Jackson. ― Estou interessado.

Hunton estava enganado a respeito da estraçalhadora: a máquina se encontrava em
perfeito estado.
Seis inspetores estaduais a examinaram, peça por peça, antes do inquérito. O
resultado foi absolutamente negativo. O veredicto do inquérito foi morte acidental.
Perplexo, Hunton procurou Roger Martin, um dos inspetores, após a audiência.
Martin parecia um copo grande de água, com óculos tão grossos como o fundo de copos de
dose pequena. Sob o interrogatório de Hunton, brincou com uma caneta esferográfica.

― Nada? Absolutamente nada de errado com a máquina?
― Nada ― respondeu Martin. ― Naturalmente, a barra de segurança foi o âmago
da questão. Está em perfeita ordem de funcionamento. Você ouviu o depoimento daquela
Sra. Gilhan. A Sra. Frawley deve ter avançado demais a mão. Ninguém viu; cada um
cuidava de seu trabalho. Ela começou a gritar. A mão já se fora e a máquina estava puxando
o braço. Tentaram puxá-la para fora, em lugar de desligarem a máquina ― puro pânico.
Outra mulher, a Sra. Keene, afirmou haver tentado desligá-la, mas é uma suposição razoável
que tenha apertado o botão de partida e não o de parada, em meio à confusão. A essa altura,
já era tarde demais.
― Então, a barra de segurança funcionou mal ― declarou peremptoriamente
Hunton. ― A menos que ela tenha passado a mão por cima da barra e não por baixo?
― É impossível. Existe uma placa de aço inoxidável acima da barra de segurança. E
a barra propriamente dita não funcionou mal. Está ligada em circuito com a própria
máquina. Se a barra de segurança entrar em pane, a máquina pára.
― Então, pelo amor de Deus, como aconteceu?
― Não sabemos. Meus colegas e eu somos de opinião que a única maneira pela
qual a passadeira de alta velocidade poderia ter matado a Sra. Frawley foi que esta caísse na
máquina, vindo de cima. E estava com ambos os pés no chão quando o acidente ocorreu.
Uma dúzia de testemunhas confirmam isso.
― Você está descrevendo um acidente impossível ― disse Hunton.
― Não. Apenas um acidente que nós não compreendemos.
Fez uma pausa, hesitou e depois acrescentou:
― Já que você parece levar o caso tão a sério, vou-lhe contar uma coisa, Hunton.
Mas se você comentar com alguém, negarei ter dito qualquer coisa. Mas não gostei daquela
máquina. Parecia... quase zombar de nós. Tenho inspecionado mais de uma dúzia de
máquinas passadeiras de alta velocidade nos últimos cinco anos, a intervalos regulares.
Algumas delas se encontram em estado tão deplorável que eu não permitiria nem a
um cão aproximar-se delas ― a lei estadual é lamentavelmente frouxa., Apesar disso, eram
apenas máquinas. Mas esta... é uma fantasma. Não sei por que, mas é. Acho que se eu
encontrasse uma única coisa, o menor detalhe técnico fora de ordem, mandaria interditá-la.
Loucura, não acha?
― Sinto a mesma coisa ― declarou Hunton.
― Deixe-me contar-lhe uma coisa que aconteceu há dois anos, em Milton ― disse
o inspetor, tirando os óculos e começando a poli-los vagarosamente no colete. ― Um
sujeito largou uma velha geladeira nos fundos do quintal. A mulher que nos chamou disse
que seu cão foi apanhado pela geladeira e morreu sufocado. Pedimos à polícia estadual
daquela área que informasse o homem de que a geladeira tinha que ir para o depósito de lixo
municipal. Era um sujeito bastante educado, disse que sentia muito a morte do cão.
Embarcou a geladeira em sua camioneta na manhã seguinte e a levou para o depósito de
lixo. Naquela tarde, uma mulher da vizinhança deu queixa de que seu filho desaparecera.
― Meu Deus ― disse Hunton.
― A geladeira estava no depósito e o menino dentro dela, morto. Um menino
esperto, segundo a mãe. Esta declarou que o filho jamais brincaria numa geladeira vazia, da
mesma forma que nunca aceitaria carona de um estranho. Pois bem, ele brincou dentro da
geladeira. Deixamos tudo de lado. Caso encerrado?
― Creio que sim -respondeu Hunton.
― Não. No dia seguinte, o vigia do depósito foi retirar a porta da geladeira. Portaria
Municipal n° 58, relativa à manutenção de depósitos públicos de lixo ― disse Martin,
olhando inexpressivamente para Hunton. ― Encontrou dentro dela seis aves mortas.
Gaivotas, pardais, um tordo. E contou que a poria da geladeira se fechou sobre seu
braço quando ele varria as aves mortas. Deu-lhe um susto dos diabos. A estraçalhadora da
Lavanderia Faixa Azul me causa essa impressão, Hunton. Não gosto dela.

Fitaram-se calados na sala de audiências deserta, a cerca de seis quarteirões do local
onde a Passadeira e Dobradeira de Alta Velocidade Hadley-Watson Modelo-6 funcionava
na movimentada lavanderia, fumegando vapor sobre os lençóis.
Em uma semana o caso foi afastado da mente de Hunton por tarefas policiais mais
prosaicas. Só voltou quando ele e a esposa foram à casa de Mark Jackson para uma noitada
de bisca e cerveja.

Jackson o cumprimentou com:
― Já lhe passou pela cabeça que a máquina da lavanderia de que me falou seja
assombrada, Johnny?
Hunton piscou, confuso.
― O quê?
― Aquela passadeira de alta velocidade da Lavanderia Faixa Azul. Creio que não
foi você quem atendeu ao chamado desta vez.
― Que chamado? ― quis saber Hunton, interessado.
Jackson passou-lhe o jornal vespertino e apontou para uma notícia no final da
segunda página. O jornal dizia que se rompera um tubo de vapor da grande máquina
passadeira de alta velocidade na Lavanderia Faixa Azul, queimando três das seis mulheres
que trabalhavam na extremidade de alimentação da máquina. O acidente ocorrera às 3:45 da
tarde e fora atribuído a uma elevação de pressão na caldeira da lavanderia. Uma das
mulheres, a Sra. Anette Gillian, estava internada no Hospital Municipal com queimaduras
de segundo grau.
― Estranha coincidência ― comentou ele, mas a lembrança das palavras do
Inspetor Martin na sala de audiências vazia voltou-lhe de imediato à mente: É um
fantasma... E a estória sobre o cão, o menino e as aves apanhados pela velha geladeira.
Naquela noite, ele jogou cartas muito mal.
A Sra. Gillian estava recostada na cabeceira da cama, lendo Screen Secrets, quando
Hunton entrou na enfermaria de quatro camas. Uma enorme bandagem cobria-lhe um braço
e o lado do pescoço. A outra ocupante da enfermaria, uma jovem pálida, estava adormecida.
A Sra. Gillian piscou ao ver o uniforme azul e, em seguida, sorriu com certa
hesitação.
― Se for com a Sra. Cherinikov, o senhor terá que voltar mais tarde. Acabaram de
dar-lhe a medicação.
― Não, é com a senhora mesmo, Sra. Gillian.
O sorriso diminuiu.
― Estou aqui não oficialmente ― o que significa que me sinto curioso quanto ao
acidente na lavanderia. Sou John Hunton.

Ele estendeu a mão.
Foi a atitude adequada. O sorriso da Sra. Gillian tornou-se brilhante e ela apertou
desajeitadamente a mão de Hunton com sua mão ilesa.

― Estou às suas ordens, Sr. Hunton. Meu Deus, pensei que o meu Andy estivesse
metido em encrencas na escola novamente.
― O que aconteceu?
― Estávamos colocando lençóis na máquina quando ela simplesmente explodiu...
ou algo semelhante. Eu pensava em ir para casa passear com os cães, quando houve um
grande estouro, como uma bomba. Vapor por toda parte e aquele barulho de assovio...
Horrível ― respondeu ela, o sorriso trémulo prestes a apagar-se. ― Era como se a máquina
respirasse. Como um dragão, na verdade. E Alberta... isto é, Alberta Keene... gritou que
alguma coisa estava explodindo; todo mundo corria e gritava; Ginny Jason começou a gritar
que estava queimada. Comecei a correr e caí. Até então, eu não sabia que fora a mais
atingida. Graças a Deus não foi pior. Aquele vapor passa nos tubos a 3OO graus.
― O jornal disse que um tubo de vapor se rompeu. O que significa isso?
― O tubo do teto desce até uma espécie de tubo flexível que alimenta a máquina.
George... isto é, o Sr. Stanner... disse que deve ter havido excesso de pressão na
caldeira, ou algo assim. O tubo flexível estourou.
Hunton não conseguiu pensar em outras perguntas a fazer. Estava prestes a sair
quando ela disse, pensativa:
― Não costumávamos ter problemas com aquela máquina. Só recentemente. O
rompimento do tubo flexível. Aquele horrível, horrível acidente com a Sra. Frawley, que
Deus a tenha. E algumas coisinhas, como o dia em que o vestido de Essie se prendeu numa
das correntes de transmissão. Poderia ter sido perigoso, se ela não rasgasse a saia
imediatamente. E parafusos e porcas que se soltam. Oh, Herb Diment ― é o mecânico da
lavanderia ― tem passado maus bocados com a máquina. Os lençóis ficam presos na
dobradeira. George afirma que isso acontece porque estão usando branqueador demais nas
máquinas de lavar, mas não costumava acontecer. Agora as garotas detestam trabalhar na
máquina. Essie diz até mesmo que ainda tem pedaços de Adelle Frawley lá dentro e isso é
sacrilégio, ou algo assim. Como se existisse uma maldição. Tem sido assim desde que
Sherry cortou a mão num dos grampos.

― Sherry? ― repetiu Hunton.
― Sherry Ouelette. Uma belezinha, mal saída do ginásio. Boa trabalhadora. Mas
desajeitada, às vezes. O senhor sabe como são as jovens.
― Ela cortou a mão em alguma coisa?
― Nada de estranho nisso. Existem grampos que apertam a correia de alimentação,
compreende? Sherry estava ajustando os grampos para podermos passar uma carga mais
pesada de roupas e, provavelmente, sonhando com algum rapaz. Cortou o dedo e sangrou
por todos os lados.
A Sra. Gillian pareceu intrigada.
― Só depois disso os parafusos começaram a soltar-se. Adelle foi... o senhor sabe...
uma semana depois. Como se a máquina tivesse experimentado o gosto do sangue e tivesse
gostado dele. As mulheres às vezes têm idéias engraçadas, não acha, Sr. Hinton?
― Hunton ― corrigiu ele distraidamente, olhando por cima da cabeça dela para o
espaço.

Ironicamente, Hunton conhecera Jackson numa lavanderia automática com
lanchonete anexa, situada no quarteirão que separava suas casas, e ainda era lá que o guarda
e o professor de inglês tinham suas conversas mais interessantes.
Agora, sentavam-se lado a lado em cadeiras de plásticos, suas roupas girando por
detrás das portinholas de vidro das máquinas de lavar que funcionavam com moedas. A
brochura contendo a coleção das obras de Milton, pertencente a Jackson, ficara largada de
lado enquanto ele escutava Hunton relatar a estória da Sra. Gillian.

Quando Hunton terminou, Jackson disse:

― Eu lhe perguntei, certa vez, se você julgava que a estraçalhadora poderia ser
assombrada. Naquela ocasião, foi brincadeira. Agora, torno a perguntar.
― Não ― respondeu Hunton. ― Não seja estúpido.
Jackson observou pensativamente as roupas que giravam nas máquinas.
― Assombrada é um termo inadequado. Digamos possessa. Existem quase tantos
encantamentos para chamar os demônios quanto para expulsá-los. O Galho Dourado, de
Frazier, está cheio deles. Os folclores asteca e druídico contêm outros. E existem ainda mais
antigos, que remontam ao Egito. Quase todos eles podem ser reduzidos a denominadores
espantosamente comuns. O mais comum, naturalmente, é o sangue de uma virgem.
Olhou para Hunton, acrescentando:
― A Sra. Gillian disse que tudo começou depois que a tal Sherry Ouelette cortou-se
acidentalmente.
― Ora, deixe disso ― replicou Hunton.
― Você tem que admitir que ela parece ser o tipo exato ― insistiu Jackson.
― Irei diretamente à casa dela ― disse Hunton com um leve sorriso Posso até
imaginar:
"Srta. Ouelette, sou o Guarda John Hunton. Estou investigando uma passadeira de
alta velocidade possuída pelo demônio e gostaria de saber se a senhorita é virgem." Acha
que terei oportunidade para despedir-me de Sandra e das crianças antes que me levem para
o manicômio?
― Estou disposto a apostar que você acabará dizendo algo bem semelhante ― disse
Jackson, sem sorrir. ― Estou falando sério, Johnny. Aquela máquina me deixa morto de
medo e eu nem sequer a vi.
― Apenas para podermos argumentar ― disse Hunton ―, quais são alguns dos
outros supostos denominadores comuns?

Jackson sacudiu os ombros.

― É difícil dizer sem estudar o assunto. A maioria das fórmulas de magia
anglosaxônicas especificam terra de cemitério ou um olho de sapo. Os encantamentos e
feitiços europeus mencionam freqüentemente a mão da glória, que pode ser interpretada
como a mão de um defunto ou uma das drogas alucinógenas usada em conexão com o Sabá
dos Bruxos geralmente a beladona ou um derivado da psilocibina. Devem existir outros.
― E você acha que tudo isso entrou na passadeira da Lavanderia Faixa Azul? Por
Deus, Mark, sou capaz de apostar que não existe beladona num raio de oitocentos
quilômetros daqui. Ou julga que alguém decepou a mão de seu falecido Tio Fred e a largou
na dobradeira?
― Se sete macacos datilografassem durante setecentos anos...
― Um deles escreveria as obras de Shakespeare ― concluiu Hunton em tom azedo.
― Vá para o inferno. É sua vez de ir à farmácia conseguir troco para colocarmos moedas
nas máquinas de secar.

Foi muito esquisito como George Stanner perdeu o braço na estraçalhadora.
Às sete horas da manhã de segunda-feira a lavanderia estava deserta a não ser por
Stanner e Herb Diment, o mecânico de manutenção. Estavam cumprindo a tarefa semestral
de lubrificar os rolamentos da estraçalhadora afites que o expediente normal da lavanderia
começasse às sete e meia. Diment se encontrava na extremidade oposta, lubrificando os
quatro rolamentos secundários e refletindo sobre o quanto aquela máquina fazia-o sentir-se
mal naquelas últimas semanas, quando a estraçalhadora começou repentinamente a
funcionar ruidosamente:

Diment estivera erguendo quatro das correias de lona da saída da máquina, a fim de
poder alcançar o motor sob elas, quando, de repente, as correias começaram a passar em
suas mãos, rasgando a pele e carne das palmas e arrastando-o consigo.
Livrou-se com um arranco convulsivo segundos antes que as correias arrastassem
suas mãos para o interior da dobradeira.

― Que diabo, George! ― berrou ele. ― Desligue essa maldita máquina!
George Stanner começou a berrar.
Um som agudo, lamentoso, enlouquecido de sangue, que encheu a lavanderia,
ecoando nas caixas de aço das máquinas de lavar, nas bocas escancaradas das máquinas de
passar a vapor, nos olhos vazios das grandes máquinas de secar. Stanner inspirou uma
grande quantidade de ar e tornou a gritar:
― Oh, meu Jesus Cristo, fui apanhado! FUI APANHADO!

Os rolos começaram a emitir vapor fervente. A dobradeira rangia e vibrava.
Rolamentos e motores pareciam gritar com uma oculta vida própria.
Diment correu para a outra extremidade da máquina.

O primeiro rolo já assumia uma sinistra coloração vermelha. Diment emitiu um
gemido gorgolejante. A estraçalhadora uivava, silvava e vibrava.

Um observador surdo julgaria., a princípio, que Stanner estava apenas debruçado
sobre a máquina num ângulo esquisito. Depois, até mesmo um surdo veria o ricto pálido no
rosto de olhos esbugalhados, a boca contorcida abrindo-se em um grito contínuo. O braço
desaparecia sob a barra de segurança e por baixo do primeiro cilindro; o tecido da camisa
fora arrancado na costura do ombro e o antebraço inchava grotescamente à medida que o
sangue era impelido de volta.

― Desligue! ― berrou Stanner.

Seu cotovelo se partiu com um estalo.
Diment apertou o botão de desligar.
A estraçalhadora continuou a zumbir, grunhir, girar.
Incrédulo, Diment tornou a apertar repetidamente o botão. E, novamente ― nada.
A pele do braço de Stanner estava brilhante e esticada. Logo se romperia sob a
pressão exercida pelo cilindro; ainda assim, ele continuava consciente, gritando. Diment viu
a imagem de uma caricatura de pesadelo: um homem esmagado por um rolo compressor,
deixando apenas uma sombra.

― Os fusíveis...! ― guinchou Stanner.

Sua cabeça estava sendo puxada para baixo, à medida que ele era arrastado para a
frente.

Diment girou nos calcanhares e correu à sala da caldeira, os gritos de Stanner a
persegui-lo como fantasmas lunáticos.

Na parede esquerda existiam três pesadas caixas cinzentas contendo todos os
fusíveis do sistema elétrico da lavanderia. Diment abriu-as e, como um louco, começou a
arrancar os compridos fusíveis cilíndricos, atirando-os por cima dos ombros. As luzes se
apagaram; depois o compressor de ar; então, a própria caldeira, com uma forte lamúria que
morreu aos poucos.

E a estraçalhadora continuava funcionando. Os gritos de Stanner reduziram-se a
gemidos borbulhantes.

Por acaso, o olhar de Diment pousou no machado de incêndio em sua caixa com
porta de vidro. Agarrou-o com um gemido engasgado e correu de volta à máquina. O braço
de Stanner já se fora quase até o ombro. Dentro de alguns segundos seu pescoço retesado se
quebraria de encontro à barra de segurança.

― Não posso ― balbuciou Diment, empunhando o machado. ― Meu Deus,
George, eu não posso...

Agora, a máquina era um abatedouro. A dobradeira cuspia pedaços de manga de
camisa, tiras de carne, um dedo. Stanner soltou um forte grito de desespero e Diment ergueu
o machado, golpeando no interior obscuro e sombrio da lavanderia. Duas vezes. Outra mais.
Stanner tombou ao chão, inconsciente e azulado, o sangue jorrando do coto de braço
abaixo do ombro. A estraçalhadora tragou o que ainda restava do braço... e parou.
Chorando, Diment tirou o cinto das calças e começou a fazer um torniquete.
Hunton falava ao telefone com Roger Martin, o inspetor. Jackson o observava,
rolando pacientemente uma bola para Patty Hunton, de três anos de idade, brincar.

― Ele retirou todos os fusíveis? ― perguntou Hunton. ― E o botão de parada
simplesmente não funcionou, hem? ... A máquina foi interditada? ... Muito bem. Ótimo.
Hem? ... Não, não é oficial.

Hunton franziu a testa e lançou um olhar de esguelha a Jackson.

― Ainda se recorda daquela geladeira velha, Roger? ... Sim. Para mim também. Até logo.

Desligou e olhou para Jackson.

― Vamos falar com a garota, Mark.
Ela morava em seu próprio apartamento (a maneira hesitante, porém possessiva,
pela qual convidou-os a entrar depois que Hunton lhe exibiu o distintivo da polícia levou-o
a suspeitar que ela não o possuía há muito tempo) e sentou-se nervosamente em frente a eles
na minúscula sala cuidadosamente decorada.
― Sou o Guarda Hunton e esse é meu parceiro, Sr. Jackson. É a respeito do
acidente na lavanderia.
Sentia-se imensamente pouco à vontade com aquela moça morena, tímida e bonita.
― Terrível ― murmurou Sherry Ouelette. ― Foi o único lugar onde trabalhei. O
Sr. Gartley é meu tio. Gostei porque ele me permitiu morar aqui e ter meus próprios amigos.
Mas agora... é tão assombroso...
― A Junta Estadual de Segurança Industrial interditou a máquina até o final de uma investigação minuciosa ― disse Hunton. ― A senhorita já sabia?
― Claro ― suspirou ela, inquieta. ― Não sei o que vou fazer...
― Srta. Ouelette ― interrompeu Jackson ―, sofreu um acidente naquela máquina,
não é mesmo? Cortou a mão num grampo, creio?
― Sim, cortei o dedo.
De repente, seu rosto se anuviou.
― Aquilo foi a primeira coisa ― disse ela, fitando-os com ar triste. Às vezes, sinto
que as garotas já não gostam tanto de mim comz) antes... como se eu fosse a culpada.
― Preciso fazer-lhe uma pergunta grosseira ― disse vagarosamente Jackson. ―
Uma pergunta que não lhe agradará. Parece absurdamente pessoal e sem qualquer relação
com o assunto, mas só lhe posso dizer que não é assim. Suas respostas nem mesmo serão
anotadas numa ficha ou registro.
Ela pareceu assustada:
― Eu... fiz alguma coisa errada?
Jackson sorriu e meneou negativamente a cabeça; ela se derreteu. Graças a Deus
pela presença de Mark, pensou Hunton.
― Todavia, acrescentarei o seguinte: a resposta poderá ajudá-la a manter este belo
apartamento, a voltar ao emprego, a tornar as coisas na lavanderia como eram antes.
― Eu responderia qualquer pergunta para conseguir isso ― declarou a moça.
― Sherry, você é virgem?
Ela ficou totalmente perplexa, chocada, como se um sacerdote lhe desse a
comunhão e, em seguida, a esbofeteasse. Então, ergueu a cabeça, fez um gesto indicando o
pequeno apartamento bem arrumado, como se perguntasse a eles como podiam acreditar
que fosse um local de encontros amorosos.
― Estou-me guardando para meu marido ― replicou simplesmente.
Hunton e Jackson entreolharam-se calmamente e, naquela fração de segundo,
Hunton compreendeu que tudo era verdade: um demônio se apoderara do aço inanimado das
engrenagens da estraçalhadora, transformando-a em algo com vida própria.
― Muito obrigado ― disse Jackson em voz baixa.
― E agora? ― indagou Hunton, desanimado, no caminho de volta. Procuramos um
padre para exorcizar a máquina?
Jackson grunhiu.
― Você teria que ir muito longe até encontrar algum padre que não lhe desse as
Escrituras para ler enquanto ele telefonasse para o manicômio. O problema é seu, Johnny.
― Podemos fazer isso?
― Talvez. O problema é o seguinte: sabemos que existe algo na máquina. Não
sabemos o quê.
Hunton sentiu um calafrio, como se tocado por um dedo descarnado. Jackson
prosseguiu:
― Existem muitos demônios. O que estamos enfrentando pertence ao círculo de
Bubastis ou Pan? Baal? Ou ao demônio cristão que, chamamos de Satã? Não sabemos. Se o
demônio resultasse de um feitiço proposital, teríamos melhores possibilidades. Todavia,
parece tratar-se de um caso de possessão aleatória.
Jackson passou os dedos pelos cabelos e acrescentou:
― O sangue de uma virgem, sim. Mas isso não estreita nosso campo. Precisamos
ter certeza, muita certeza.
― Por quê? ― perguntou bruscamente Hunton. ― Por que simplesmente não
reunimos uma série de fórmulas de exorcismo e as experimentamos?
O rosto de Jackson assumiu uma expressão fria.
― Não se trata de polícia e bandidos, Johnny. Pelo amor de Deus, nem pense nisso.

O ritual de exorcismo é horrivelmente perigoso. De certo modo, é como fissão nuclear
controlada. Podemos cometer um erro e nos destruirmos. O demônio está preso naquela
máquina. Contudo, se lhe dermos uma oportunidade...
― Ele poderia sair?
― Ele adoraria sair ― replicou sombriamente Jackson. ― E gosta de matar.
Quando Jackson chegou na tarde seguinte, Hunton mandara a mulher e a filha ao
cinema. Tinham a sala à sua disposição e Hunton se sentia aliviado por isso. Ainda mal
podia acreditar no que se envolvera.
― Cancelei minhas aulas ― informou Jackson. ― E passei o dia com alguns dos
livros mais horríveis que se possa imaginar. Esta tarde, alimentei o computador com mais de
trinta receitas para invocar demônios. Consegui vários elementos comuns.
Surpreendentemente poucos.
Mostrou a lista a Hunton: sangue de virgem, terra de cemitério, mão de glória,
sangue de morcego, musgo noturno, casco de cavalo, olho de sapo.
Havia outros, todos assinalados como secundários.
― Casco de cavalo ― disse Hunton, pensativo. ― Engraçado...
― É muito comum. Na verdade...
Hunton interrompeu:
― Poderiam essas coisas ― qualquer uma delas ― ser interpretadas flexivelmente?
― Se liquens colhidos à noite pudessem substituir musgo noturno, por exemplo?
― Sim.
― É muito provável ― replicou Jackson. ― As fórmulas mágicas são
freqüentemente ambíguas e elásticas. A magia negra sempre deixou bastante espaço para a
criatividade.
― Substitua casco de cavalo por gelatina, por exemplo ― disse Hunton. ― Muito
popular nos almoços de marmita. Notei um pequeno recipiente de gelatina sob a plataforma
da máquina no dia em que a Sra. Frawley morreu. Gelatina é feita com cascos de cavalo.
Jackson assentiu.
― Mais alguma coisa?
― Sangue de morcego... bem, é um lugar amplo, com muitos cantos e nichos não
iluminados. A presença de morcegos parece provável, embora eu duvide que a
administração admitisse que eles existam lá. É concebível que um dos morcegos ficasse
acidentalmente preso na máquina.
Jackson inclinou a cabeça para trás e esfregou os olhos injetados de sangue.
― Ajusta-se... tudo se ajusta.
― É mesmo?
― Sim. E creio que podemos eliminar com segurança a mão de glória. Certamente
ninguém largou uma mão na máquina antes da morte da Sra. Frawley e a beladona
decididamente não é uma planta nativa desta região.
― Terra de cemitério?
― O que acha?
― Teria que ser urna coincidência dos diabos ― replicou Hunton. O cemitério mais
próximo é Pleasant Hill, que fica a oito quilômetros da Lavanderia Faixa Azul.
― Muito bem ― disse Jackson. ― Consegui que o operador do computador ― que
pensou que eu me preparava para a Noite das Bruxas fizesse um breakdown positivo de
todos os elementos primários e secundários constantes da lista. Todas as combinações
possíveis. Eliminei cerca de duas dúzias que não faziam o menor sentido. Os outros se
agrupam em categorias razoavelmente bem definidas. Os elementos que isolamos
pertencem a uma delas.
― Qual é?

Jackson sorriu.

― Uma bem fácil. Os centros de mitos na América do Sul com ramificações no
Caribe.
Relacionados com o vodu. A literatura que consultei considera as divindades
estritamente de somenos importância quando comparadas à turma da pesada, como Saddath
ou Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Pronuncia. A coisa naquela máquina vai fugir como o
valentão do bairro.
― Como faremos?
― Água benta e um fragmento da Sagrada Eucaristia devem ser suficientes. E
também podemos ler parte do Levítico para a máquina. Pura magia branca cristã.
― Tem certeza de que não é pior?
― Não vejo como poderia ser ― disse Jackson, pensativo. ― Não me importo de
lhe confessar que aquela mão de glória me preocupava. É magia muito negra. Forte pra
valer.
― Água benta não a deteria?
― Um demônio invocado com conjunção com a mão de glória poderia devorar uma
pilha inteira de bíblias como café da manhã. Estaríamos seriamente encrencados se nos
metêssemos com algo assim. Seria melhor desmontar a maldita máquina.
― Bem, se tem tanta certeza...
― Não, tenho apenas uma certeza razoável ― disse Jackson. ― Tudo se ajusta
perfeitamente.
― Quando?
― Quanto mais cedo melhor ― replicou Jackson. lá? Quebramos uma vidraça?
― Como entramos
Hunton sorriu, enfiou a mão no bolso e balançou uma chave diante do nariz de
Jackson.
― Quem lhe arranjou isso? Gartley?
Não ― respondeu Hunton. ― Um inspetor estadual chamado Martin.
― Ele sabe que vamos? ― Creio que desconfia. Contou-me uma estória curiosa há
duas semanas.
― A respeito da estraçalhadora?
― Não ― disse Hunton. ― A respeito de uma geladeira. Vamos.
Adelle Frawley estava morta; recosturada por um paciente embalsamador, jazia em
seu caixão. Não obstante, parte de seu espírito talvez permanecesse na máquina e, se assim
era, gritava. Eia saberia, poderia tê-los prevenido. Tinha tendência a indigestão e, por causa
de um mal tão comum, ingeria pastilhas estomacais chamadas E-Z Gel, que podiam ser
adquiridas em qualquer farmácia por noventa e nove centavos. No lado externo da caixa
está impressa uma advertência: portadores de glaucoma não devem ingerir E-Z Gel porque
o ingrediente ativo agrava essa condição. Infelizmente, Adelle Frawley não sofria de
glaucoma. Poderia ter-se lembrado do dia, pouco antes de Sherry Ouelette cortar a mão, em
que ela deixara cair uma caixa cheia de pastilhas de E-Z Gel na máquina, por acidente.
Todavia, ela estava. morta, sem se dar conta de que o ingrediente ativo que lhe aliviava a
azia era um derivado químico da beladona, conhecida curiosamente em alguns países da
Europa pelo nome "mão de glória".
Houve um repentino e desagradável som de arroto no silêncio espectral da
Lavanderia Faixa Azul ― um morcego voou cegamente para sua toca na camada de
isolamento acima das secadoras, onde fizera seu ninho, fechando as asas sobre a cara cega.
O barulho quase se assemelhava a uma risadinha.
A estraçalhadora começou a funcionar com um rangido repentino correias passando
velozmente na escuridão, engrenagens rolavam ruidosamente, os pesados cilindros pulverizadores rodavam continuamente.

Está pronta para eles.

Passava um pouco de meia-noite quando Hunton parou o carro no estacionamento e
a lua se ocultou por detrás de um grupo de nuvens que se movimentava no céu. Num só
movimento, Hunton pisou no freio e apagou os faróis; a testa de Jackson quase se chocou
contra o painel acolchoado.
Desligou a ignição e o contínuo barulho de engrenagem e jatos de vapor ficou mais
audível.
― É a estraçalhadora ― disse ele. ― É a estraçalhadora. Funcionando sozinha. Em
plena noite.
Ficaram sentados no carro por um momento, calados, sentindo o medo subir-lhes
pelas pernas.
Afinal, Hunton disse:
― Muito bem, vamos lá.
Saltaram e caminharam até o prédio, ouvindo o barulho da estraçalhadora tornar-se
mais alto. Quando Hunton enfiou a chave na fechadura da porta de serviço, refletiu que a
máquina soava como se estivesse viva como se respirasse em enormes inalações quentes e
falasse consigo mesma em sardônicos sussurros sibilantes.
― De repente, sinto-me satisfeito por estar com um tira ― declarou Jackson.
Passou o saco pardo que carregava de um braço para outro. O saco continha um
vidrinho de geléia cheio de água benta, envolto em papel impermeável, e uma Bíblia
Sagrada.
Entraram e Hunton acionou os interruptores de luz situados junto à porta. As
lâmpadas fluorescentes piscaram e produziram luz fria. No mesmo instante, a estraçalhadora
parou.
Uma membrana de vapor cobria os cilindros. A máquina esperava por eles em seu
novo e ameaçador silêncio.
― Deus, como é feia! ― murmurou Jackson.
― Vamos ― disse Hunton. ― Antes de perdermos a coragem.
Andaram até a máquina. A barra de segurança estava na posição baixa, acima da
correia que alimentava a máquina.
Hunton estendeu a mão.
― Aqui já basta, Mark. Passe-me as coisas e diga-me o que fazer.
― Mas...
― Não discuta.
Jackson passou-lhe o saco e Huntou o colocou na mesa dos lençóis, em frente à
máquina. Entregou a Bíblia a Jackson.
― Vou ler ― disse Jackson. ― Quando eu apontar para você, use os dedos para
espargir água benta na máquina, dizendo: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
vai-te daqui, impuro." Entendeu?
― Sim.
― Na segunda vez que eu apontar para você, quebre a hóstia e repita a invocação.
― Como saberemos se está dando certo?
― Você saberá. A coisa é capaz de quebrar todas as vidraças do prédio, ao' sair. Se
não der resultado na primeira vez, continuaremos a repetir até que dê.
― Estou verde de medo ― disse Hunton.
― Para dizer a verdade, eu também estou.
― Se nos enganamos a respeito da mão de glória...
― Não nos enganamos ― replicou Jackson. ― Lá vamos nós.
Começou a ler. Sua voz encheu a lavanderia deserta com ecos espectrais:

― "Não vos volvais para os ídolos, nem façais para vós deuses fundidos. Eu sou o
Senhor vosso Deus.. "
As palavras caíam como pedras num silêncio que de repente se enchia de um frio
insidioso, tumular. A estraçalhadora permanecia silenciosa e imóvel sob as lâmpadas
fluorescentes. Para Hunton, ela ainda parecia sorrir malevolamente.
― "... e a terra vos vomitará de seu seio por tê-la contaminado, como vomitou
outros povos antes de vós..."
Jackson ergueu os olhos, com o rosto tenso, e apontou.
Hunton respingou água benta na correia transportadora.
Houve um súbito grito rangente de metal torturado. A fumaça subia das correias nos
pontos onde a água benta pingara, assumindo formas contorcidas e tingidas de vermelho. A
estraçalhadora começou a funcionar repentinamente.
― Nós o apanhamos! ― gritou Jackson acima do crescente barulho. ― Está
fugindo!
Recomeçou a ler, erguendo a voz para vencer o ruído da maquinaria. Apontou outra
vez para Hunton e este jogou alguns fragmentos de hóstia. Quando ele o fez, foi
bruscamente dominado por um terror de gelar os ossos até a medula, a repentina e vívida
sensação de que não dera certo, de que a máquina não se amedrontara com o blefe ― e era
mais forte que eles.
A voz de Jackson continuava a elevar-se, aproximando-se do clímax.
Centelhas começaram a saltar através do arco entre o motor principal e o
secundário; o cheiro de ozônio enchia o ambiente, como o cheiro de cobra do sangue
quente. Agora, o motor principal passou a emitir fumaça; a estraçalhadora funcionava numa
velocidade louca, inacreditável: bastaria tocar a ponta de um dedo na correia central para
que o corpo inteiro fosse tragado pela máquina e reduzido a trapos sangrentos no espaço de
cinco segundos. O chão de concreto vibrava e tremia sob os pés deles.
Um rolamento principal estourou com uma esfusiante explosão de luz roxa,
enchendo o ar gelado com o cheiro de tempestades elétricas; ainda assim, a estraçalhadora
funcionava cada vez mais depressa, correias, cilindros e engrenagens girando numa
velocidade que os fazia parecer se mesclarem, mudarem, derreterem, transmudarem...
Hunton, que ficara imóvel, quase hipnotizado, deu um súbito passo à retaguarda.
― Afaste-se! ― berrou acima da barulheira infernal.
― Estamos quase o pegando! ― gritou Jackson em resposta. ― Por que...
De repente, um barulho indescritível de algo que se rasgava. Uma fissura no chão
de concreto correu em direção a eles e passou, alargando-se. Pedaços de cimento velho
voaram como numa explosão de estrelas.
Jackson olhou para a estraçalhadora e gritou.
A máquina tentava erguer-se do concreto, como um dinossauro tentando escapar de
uma poça de piche. E já não era mais uma máquina passadeira e dobradeira. Continuava a
mudar, a derreter-se. O cabo de 550 volts caiu, cuspindo centelhas azuis, e foi tragado pelos
cilindros. Por um instante, duas bolas de fogo olharam para eles como olhos em chamas,
dominados por uma fome fria e enorme.
Outra fenda se abriu no chão. A estraçalhadora inclinou-se para eles, quase
totalmente livre do concreto que a ancorava. Zombava deles com um sorriso diabólico; a
barra de segurança se ergueu e o que Hunton viu foi uma boca escancarada e faminta, cheia
de vapor.
Voltaram-se para fugir e outra fenda se abriu a seus pés. Por trás deles, um rugido
monstruoso quando a coisa se libertou. Hunton saltou sobre a fenda, mas Jackson
escorregou e caiu.
Hunton virou-se para ajuda-lo, mas uma imensa sombra amorfa caiu sobre ele, bloqueando a luz das lâmpadas fluorescentes.
A máquina ergueu-se acima de Jackson, que estava caído de costas com os olhos
esbugalhados e o rosto contraído num ricto de pavor ― o sacrifício perfeito. Hunton teve
apenas a impressão confusa de algo negro e móvel que assumia proporções gigantescas
diante dos dois. Algo com brilhantes olhos elétricos do tamanho de bolas de futebol, uma
boca escancarada com uma língua de lona que não parava de correr.
Fugiu. O grito de morte de Jackson o acompanhou.

Quando Roger Martin finalmente se levantou da cama para atender a campainha da
porta, estava apenas um terço acordado; mas quando Hunton cambaleou para o interior da
sala, ele foi despertado pelo choque que o trouxe de volta à realidade do mundo como uma
bofetada de mão rude.

Os olhos de Hunton pareciam querer saltar loucamente das órbitas e suas mãos eram
garras que arranhavam o peito do roupão de Martin. Um filete de sangue escorria de um
pequeno corte no rosto, que estava manchado de cinza por cimento pulverizado.
Seus cabelos se haviam tornado totalmente brancos.
― Ajude-me... pelo amor de Deus, ajude-me. Mark está morto. Jackson está morto.
― Acalme-se ― disse Martin. ― Venha sentar-se.
Hunton o acompanhou, produzindo um grosso som lamurioso na garganta, como
um cão.
Martin serviu-lhe uma dose dupla de aguardente e Hunton segurou o copo com
ambas as mãos, engolindo a forte bebida de um só gole. O copo rolou pelo tapete e as mãos
de Hunton, como fantasmas errantes, procuraram novamente as lapelas do roupão de
Martin.
― A estraçalhadora matou Mark Jackson. Ela... ela... oh, Deus... ela é capaz de
escapar!
Não podemos permitir que escape! Não podemos... nós... oh!...
Começou a berrar, um som louco e agudo que se elevava e baixava em ciclos
irregulares.
Martin tentou dar-lhe outro drinque, mas Hunton derrubou o copo com um tapa.
― Precisamos queima-la ― disse ele. ― Queima-la antes que escape. Oh, e se ela
escapar? Oh, Deus, e se ela...
Seus olhos faiscaram, vidraram-se, rolaram para cima deixando o branco à mostra e
ele tombou no tapete totalmente desmaiado.
A Sra. Martin estava à porta, segurando a gola do roupão na garganta.
― Quem é ele, Rog? É maluco? Pensei que...
Ela estremeceu.
― Não creio que ele seja louco ― disse Martin.
A mulher ficou subitamente assustada pela doentia sombra de medo no rosto do
marido.
― Meu Deus, espero que ele tenha chegado aqui a tempo...
Martin pegou o telefone e ficou imóvel.
A leste da casa, na direção de onde viera Hunton, havia um leve barulho que crescia
aos poucos. Um constante rangido metálico que se tornava mais alto. A janela da sala estava
meio aberta e Martin captou na brisa um cheiro estranho. O odor de ozônio... ou de sangue.
Ficou parado, com o telefone inútil na mão, enquanto o barulho aumentava,
rangendo e fumegando ― algo nas ruas que eta quente e emitia vapor. O fedor de sangue
encheu a sala.
Martin largou o telefone.

A coisa já estava lá fora.



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