domingo, 16 de novembro de 2014

A Faca

Edward Dawes refreou sua curiosidade o mais que pôde, depois ajeitou seu corpo imenso na cadeira em frente a Herbert Smithers. Inclinando-se por cima da mesa, ficou observando-o limpar o objeto enferrujado que tinha nas mãos. Era uma faca — e quase mais nada se podia ver. Não entendia por que Smithers parecia tão preocupado com ela, no estado em que ela se encontrava. Edward Dawes acariciou seu copo e ficou esperando que o outro falasse.

Mas, como Smithers continuasse a ignorá-lo, deu o último gole e baixou o copo com força, deixando-o em cima da mesa.

— Esta faca não é lá muito bonita — observou desdenhosamente. — Diria que nem vale a pena limpá-la.

— Ham, ham...

Smithers, com este único comentário, continuou a limpar a faca cuidadosamente, raspando com uma lima a crosta de sujeira.

— O que é isso? — indagou Gladys, a empregada de seios exuberantes, do bar Três Carvalhos, que se aproximara para recolher os copos vazios.

— É uma faca — Smithers condescendeu em explicar. — Uma faca antiga e rara, que me pertence porque a achei.

Foi a vez de Dawes proferir uma exclamação, afirmando em voz alta para o bar inteiro, embora só os três estivessem presentes àquela hora:

— Ele pensa que é muito valiosa...

— Não me parece muito valiosa — disse Gladys com franqueza.

— Parece-me uma coisa feia e enferrujada que devia ser devolvida ao monte de ferro velho de onde veio.

O silêncio de Smithers foi mais eloqüente do que se tivesse dito alguma coisa. Umedeceu com saliva um lenço sujo que tirara do bolso e esfregou uma pequena mancha vermelha que havia perto da ponta, ainda coberta de sujeira. O pequeno ponto vermelho foi aumentando, emergindo da crosta de sujeira como uma pedra lapidada de um brilho vermelho muito grande.



— Mas é uma pedra! — exclamou Gladys com um súbito interesse. — E olhem como brilha! Talvez seja uma pedra preciosa de verdade!

— Outra dose — pediu Smithers incisivo.

Gladys afastou-se irritada, meneando os quadris como se não sentisse o menor interesse pela descoberta de Smithers. Mas logo olhou para trás, por cima do ombro, a negar a falta de interesse que os quadris queriam simular.

— Uma jóia!

O tom de desdém na voz de Dawes era agora um pouco diferente. Inclinou-se para a frente, para examinar melhor enquanto Smithers esfregava.

— Mas não é possível!

— E por que acha que não é possível?

Smithers soprou a pedra vermelha e poliu-a na manga da camisa, erguendo-a depois para admirá-la. Piscava e brilhava como um olho vermelho, parecendo absorver todos os reflexos do fogo que ardia na pequena lareira atrás da mesa em que estavam sentados.

— Provavelmente — observou então, com a tranqüila dignidade conveniente a um homem que acabara de tomar posse de uma fortuna — trata-se de um rubi.

— Um rubi! — repetiu Dawes, como que chocado com a palavra.

— E o que estaria fazendo, jogada na rua onde a encontrou, uma faca com um rubi no cabo?

— Não estava na rua — informou Smithers, indiferente.

Pegou a lima outra vez e começou a tirar sujeiras das fendas do cabo todo lavrado.

— Encontrei-a no meio da terra que estão retirando dos ralos lá de Dorset Street. Provavelmente estava dentro do ralo há muitos anos.

Seu corpo magro encolheu-se dentro das roupas esfarrapadas que o cobriam, os lábios se apertaram.

— Olhe para a ferrugem e para a sujeira — disse em tom de desafio. — Isso prova que estava lá dentro há muito tempo. Ninguém poderá dizer que a perdeu durante a guerra.

Relutantemente, o Sr. Dawes concordou, observando:

— O aço é da melhor qualidade. Ainda conserva o fio, apesar de toda a ferrugem.

— Há apenas um minuto atrás — falou Smithers — declarou que nem valia a pena limpá-la.

Depois de remover uma boa parte da crosta de sujeira, o suficiente para deixar à mostra um cabo todo trabalhado e a lâmina comprida e afilada, ele segurou a faca na mão. O cabo ajustava-se perfeitamente à sua palma e simulou então alguns golpes.

— Parece que faz parte de mim — observou sonhador. — Só segurá-la provoca uma sensação das mais agradáveis. O braço fica comichando, como se tivesse levado um choque elétrico.

— Deixe-me tentar — sugeriu o Sr. Dawes, esquecendo o desdém anterior.

Smithers franziu o cenho e recuou a mão, dizendo com um tom truculento que antes nunca tivera:
— Ela é minha! O único que pode tocá-la sou eu!

Fez novamente o movimento de cravá-la e rasgar. A pedra vermelha no cabo cintilava como fogo. O rosto magro e bexiguento de Smithers estava afogueado, como que refletindo o brilho da pedra, e ele cambaleou como se de repente ficasse embriagado.

— Deve valer um bom dinheiro — comentou. — É uma faca estrangeira, muito antiga, e o rubi no cabo é verdadeiro. E fui eu que a achei.

Gladys trouxe dois copos e se esqueceu de acabar a limpeza mecânica da mesa, ficando por ali. Smithers levantou a faca a fim de descobrir a posição em que o rubi mais refulgia. Gladys olhou-a com uma expressão de cobiça.

— Talvez o rubi seja mesmo verdadeiro — observou ela. — Deíxe-me dar uma olhada, benzinho.
Seus dedos úmidos e estendidos tocaram a mão de Smithers. Ele pôs-se de pé num salto repentino.
— Não! Não pode tocar nela! Ela é minha, entendeu?

— Apenas uma olhada — pediu Gladys ansiosa. — Eu devolvo, prometo.

Ela deu um passo em sua direção, insinuante. O vermelho no rosto bexiguento de Smithers acentuou-se.

— Já lhe disse que ela é minha! — gritou ele num tom agudo. — E nenhuma carinha bonita vai tirá-la de mim! Entendeu bem?

E foi então que todos os três, inclusive Gladys, fizeram um silêncio mortal. Contemplando aturdidos o brilhante olho vermelho que estava a menos de dez centímetros do coração da moça, os dedos de Smithers ainda segurando o cabo.

Os olhos de Gladys se arregalaram e ela disse bem devagar:

— Você me apunhalou... Você me apunhalou...

E então, apenas com o barulho de um gargarejo em sua garganta, ela caiu ao chão, pesadamente, com um estrondo que pareceu abalar a sala. Ficou estendida, imóvel. Um filete vermelho surgiu em seu peito e rapidamente se foi espalhando.

A posição dos dois homens, porém, não se alterou — Smithers de pé, a faca solta em sua mão com a súbita queda de Gladys, e Dawes meio erguido, as mãos apoiadas na mesa, a boca aberta.
A fala voltou primeiro ao pequeno gari.

— Não fui eu! — gritou ele em voz rouca. — Foi a faca que a apunhalou, juro que é verdade! E não consegui impedir!

Recuperando um pouco o controle, jogou a faca longe e, soluçando, saiu cambaleando do bar.
Edward Dawes finalmente se mexeu. Ofegante, como se acabasse de realizar uma corrida prolongada, levantou-se de todo. A faca estava aos seus pés. Ficou ouvindo. Não havia o menor ruído, nenhum grito. Abaixou-se. Ao levantar, segurava a faca cautelosamente na mão.

Mecanicamente, com os olhos indo da porta para todos os cantos do bar, limpou a lâmina num pedaço do seu jornal. Depois enrolou a faca em outro pedaço e correu para a porta.

Seu plano, formulado praticamente sem um pensamento consciente, era simples. A hospedaria dirigida por sua esposa ficava do outro lado da rua. De lá, telefonaria para a polícia. Estava levando a faca como a prova que tinha de proteger. Quando a polícia chegasse, ele a devolveria, tirando antes, é claro, o rubi que havia no cabo. Se Smithers, ao ser apanhado, mencionasse o rubi, ele juraria que devia ter caído quando a faca fora jogada no chão.

Quem poderia provar o contrário?

Ainda ofegante, Edward Dawes tentou tirar o rubi com a ponta de um canivete. Estava na cozinha, perto de onde ficava o telefone. Tinha talvez uns três minutos, antes que a polícia chegasse em resposta ao seu chamado. O suor escorria do seu rosto e o coração dava pulos no peito como se estivesse fazendo um exercício extremamente violento.

Tinha mais dois minutos. Os dentes que seguravam a pedra eram por demais resistentes. O canivete escorregou e cortou sua mão. Disse um palavrão e continuou a trabalhar. O sangue que escorria da mão tornou seus dedos escorregadios e logo depois a faca se desprendeu, caindo ao chão estrepitosamente, com a lâmina de aço retinindo.

Dawes abaixou-se, o corpo volumoso dificultando o movimento, e pegou a faca outra vez. Ela escapuliu e caiu a meio metro de distância. Agora só tinha um minuto. Foi pegá-la, sem nem se dar ao trabalho de dizer um palavrão. Segurava-a na mão quando a esposa apareceu, parando repentinamente na porta.

— Edward — disse ela estridentemente — acabei de ouvi-lo falando ao telefone. Que história absurda é esta de um assassinato no Três Carvalhos?

Quando ele se empertigou, ela viu a cena inteira — seu rosto vermelho e furioso, a faca na mão, o sangue escorrendo dos dedos. — Edward, não! Você matou alguém! Você matou alguém!
Ele deu um passo em sua direção. Seus ouvidos zumbiam e um calor repentino dominava seu braço. Uma névoa vermelha surgiu diante dos seus olhos, ocultando a esposa.

— Cale a boca, sua idiota!

Ela efetivamente ficou em silêncio com o seu berro, a não ser por um pedaço inchado em sua garganta através do qual as palavras pareciam estar tentando sair.

A névoa avermelhada se dissipou então e Edward Dawes viu que sua robusta esposa estava estendida no chão, com a faca cravada em sua garganta logo abaixo do queixo. O olho vermelho no cabo piscava e brilhava para ele, mantendo-o tão fascinado que nem ouviu a batida na porta da frente.

Também não ouviu a porta abrindo-se e o ruído dos pés da lei arrastando-se até o lugar onde estava.

— Foi isto mesmo, senhor — disse o Sargento Tobins em tom respeitoso ao Inspetor que o interrogava. — Duas mulheres foram mortas, em menos de dez minutos, por dois homens diferentes. E ambos afirmam que não sabem por que o fizeram.

Ele sorriu, dando a entender que nunca se deixaria levar por tão tola afirmativa. O homem alto e magro levantou a faca delicadamente com a ponta dos dedos e observou:

— Trata-se de artesanato indiano, do século XVI ou XVII.

— Anotou, Srta. Mapes?

A mulher de meia-idade, sem maiores atrativos, que estava atrás do Inspetor, assentiu.

— Anotei sim, Sargento.

Rapidamente escreveu uns rabiscos em seu bloco.

— Limparam-na bem, Inspetor Frayne — disse o Sargento Tobins. — Não há impressões digitais. De qualquer forma, porém, ambos confessaram.

— E a pedra? — observou o homem alto dando uma pancadi-nha no cabo. — Será verdadeira?
É de fato um rubi — confirmou o Sargento. — Possui uma bolha de ar bem no meio, como se fosse uma gota de sangue.

Fez uma pausa, tossiu delicadamente e corrigiu-se:

— Isto é, como se fosse uma lágrima.

O Inspetor Frayne continuou examinando a faca. De lápis em punho, a Srta. Mapes esperava.

— É de fato uma raridade genuína — disse Frayne. —Foi ótimo ter pedido que eu desse uma olhada. Deve ter sido trazida para o nosso país por um soldado inglês, depois da rebelião Sepoy. Acho que sabe que saquearam toda a região, depois que a dominaram.

O lápis da Srta. Mapes deslocava-se com incrível velocidade.

— Diz que foi encontrada num ralo, não é? É evidente que estava lá dentro há muito tempo. Quem a encontrou, Smithers ou Dawes?

— Smithers, senhor. É engraçado, ele a tinha em seu poder há menos de uma hora e estava limpando-a, quando a usou na moça do bar. Dawes apanhou-a e dez minuos depois enfiou-a na garganta da esposa. E ambos disseram a mesma coisa, ao serem presos.

— E o que foi exatamente que eles disseram?

— Afirmaram que sentiram o braço quente e formigando, só de segurarem a faca. E de repente ficaram com raiva das mulheres. Não sabem direito explicar por que, apenas sentiram. Logo depois, as mulheres estavam mortas. Disseram — e o Sargento Tobins deu uma risada antes de prosseguir — que o que aconteceu não foi absolutamente culpa deles, que a faca se moveu sozinha, enquanto a seguravam .

— Disseram isto, e?... Meu Deus!

O homem alto olhou para a faca, com um interesse maior na expressão, e acrescentou:

— Sargento, onde fica exatamente o ralo em que a faca foi encontrada?

— Em Dorset Street, senhor. Perto da esquina com Commercial Street.

— Dorset Street? — repetiu o Inspetor com voz aguda, os olhos brilhando, enquanto guardava a faca na caixa que estava em cima da mesa do Sargento. — Esta faca... Sabe o que aconteceu em Dorset Street muito tempo atrás?

O Sargento Tobins sacudiu a cabeça.

— Lembro-me de ter lido alguma coisa a respeito, mas não me recordo exatamente do que era.

— É um dos casos mais volumosos dos nossos arquivos. Em novembro de 1888 uma mulher foi brutalmente assassinada, com uma faca, em Millers Court, em Dorset Street. Seu nome era Maria Kelley.

O Sargento Tobins encarou-o boquiaberto.

— Agora me lembro —- balbuciou. — Jack, o Estripador!

— Exatamente. Achamos que este foi o seu último assassinato, numa série de doze. Todas as vítimas foram mulheres. Ele parecia sentir um ódio especial e maligno contra as mulheres. E eu estava imaginando um assassino que saía correndo pela rua, uma faca ensangüentada na mão. Quase que posso vê-lo jogando a faca dentro de um ralo, ao fugir. A faca ficou ali até que... Mas não adianta continuar, pois tudo isso é mera especulação.

O Sargento Tobins ficou observando-o sair e fechar a porta atrás de si.

— O Inspetor daria um grande escritor de novelas — comentou sorrindo. — Pelo menos conhece fatos bastantes para imaginar os enredos.

Pegou a faca, segurou-a com firmeza e armou uma pose de ataque, sorrindo alegremente.

— Tome cuidado, Srta. Mapes. Lembre-se de Jack, o Estripador!

A Srta. Mapes deu uma risada.

— Gostaria de dar uma olhada nesta faca, Sargento Tobins, se não se importa.

Os dedos dela tocaram a mão do Sargento, que a retirou bruscamente. Seu rosto ficou vermelho e foi dominado por uma raiva inesperada, não suportando o contato da mão da Srta. Mapes. Mas, ao olhar para o rosto inexpressivo, a raiva que sentia foi suavizada por uma agradável dormência no braço que ia do pulso até o ombro. Ao dar um passo em sua direção, ouviu um zumbido estranho e suave em seus ouvidos, um ruído agudo e distante.

Será que não era o som de uma mulher gritando?

Robert Arthur

Um comentário:

  1. Cara gostei bastante do seu blog, vou te seguir, se gostar segue o meu também ! http://jkfims.blogspot.com.br/

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